Quatro grunhidos, uma voz indignada pergun­tando por que alguém não deixava em paz um chapéu, uma porta fechada com estrondo e o Sr. Packington saiu para pegar o trem das oito e quarenta e cinco para a cidade. A Sra. Packington sentou-se à mesa do café. Tinha o rosto ruborizado e os lábios apertados: e só não chorava porque a mágoa tinha sido substituída pela raiva.

— Não aguento mais — disse a Sra. Packington. — Não aguento mais! — ficou pensativa por alguns mo­mentos e depois murmurou:

— Aquela sirigaita. Que mulherzinha hipócrita e indecente! Como George pôde ser tão estúpido!

A raiva passou; voltou a mágoa. As lágrimas enche­ram os olhos da Sra. Packington e rolaram lentamente pelo seu rosto de mulher madura.

— É muito fácil dizer que eu não agüento mais, mas o que é que eu posso fazer?

De repente, sentiu-se sozinha e indefesa, comple­tamente abandonada. Com gestos lentos, pegou o jornal e leu — não pela primeira vez — um anúncio de primeira página: CONFIDENCIALVOCÊ É FELIZ? SE NÃO FOR, CONSULTE O SR. PARKER PYNE. RUA RICHMOND, 17.

— Absurdo! — disse a Sra. Packington. — Comple­tamente absurdo! —

e depois:

— Enfim, não custa tentar…

         Eis por que, às onze horas da manhã, a Sra. Packington, um pouco nervosa, entrou no escritório parti­cular do Sr. Parker Pyne.A Sra. Packington estava nervosa, sim, mas a sim­ples visão do Sr. Parker Pyne lhe deu uma impressão de segurança. Ele era forte, para não dizer gordo; tinha uma cabeça calva bem proporcionada, óculos de lentes grossas e pequenos olhos brilhantes.

— Sente-se, por favor — disse o Sr. Parker Pyne.

— Viu o meu anúncio? — perguntou, para ajudá-la.

Sim — disse a Sra. Packington, e não disse mais nada.

— E não é feliz — disse o Sr. Parker Pyne numa voz jovial e prática. — Muito poucas pessoas o são. A se­nhora ficaria surpresa se soubesse que muito poucas pessoas são felizes.

— É mesmo? — perguntou a Sra. Packington sem convicção e pouco se importando que as outras pessoas fossem ou não infelizes.

— Eu sei que isso não lhe interessa — disse o Sr. Parker Pyne, — mas a mim interessa muito. Veja a se­nhora que durante trinta e cinco anos da minha vida eu só fiz compilar estatísticas numa repartição do Go­verno. Agora que me aposentei, me ocorreu a idéia de aproveitar de uma maneira diferente toda a experiência que adquiri. É tudo muito simples. As desgraças todas podem ser classificadas em cinco categorias principais — nem mais nem menos, posso lhe garantir. Uma vez conhecida a causa de uma doença, a cura passa a ser perfeitamente possível. Eu me coloco no papel de um médico. Primeiro o médico diagnostica o mal do pa­ciente, depois prescreve o tratamento. Há casos em que nenhum tratamento dá resultado. Quando é assim, digo com toda a franqueza que não posso fazer nada. Mas lhe garanto, Sra. Packington, que se eu tomar conta de seu caso, a cura é praticamente garantida.

Seria possível? Seria uma tolice ou seria verdade? A Sra. Packington olhou esperançosa para ele.— Podemos diagnosticar o seu caso? — disse o Sr. Parker Pyne sorrindo. Recostou-se em sua cadeira e juntou as pontas dos dedos das mãos. — O problema diz respeito a seu marido. De um modo geral a senhora teve um casamento feliz. Creio que seu marido prosperou. Suponho que haja uma jovem neste caso… talvez uma moça que trabalhe no escritório de seu marido.

— Uma datilografa — disse a Sra. Packington.

— Uma sirigaitazinha falsa e indecente, cheia de batom e meias de seda e cachinhos.

As palavras saíram aos bor­botões. .O Sr. Parker Pyne balançou a cabeça de maneira apaziguadora.

— Não há nada de mal nisso… certa­mente é isso o que o seu marido diz…

— É exatamente isso.

— E por que não poderia ele manter uma amizade pura com esta moça e proporcionar um pouquinho de alegria e prazer a sua existência tão monótona? Pobre menina! Ela se diverte tão pouco… Suponho que sejam estes os seus sentimentos.

A Sra. Packington fez que sim com a cabeça, vigoro­samente — Um embuste… tudo um embuste! Ele a leva ao rio… eu também gosto muito de ir ao rio, mas há uns cinco ou seis anos ele me disse que isso atrapalhava o golfe dele. Agora ele deixou o golfe de lado por causa dela. Eu gosto de teatro, mas George vivia dizendo que estava muito cansado para sair de noite. Agora sai com ela para dançar — dançar! E volta às três da ma­drugada! Eu… eu…

— E sem dúvida ele lamenta o fato de que as mu­lheres sejam tão ciumentas… tão injustificavelmente ciumentas, quando não há nenhum motivo para o ciúme?

Novamente a Sra. Packington fez que sim com a ca­beça — é isso — perguntou secamente: — Como é que o senhor sabe disso?

— Estatísticas — disse o Sr. Parker Pyne com sim­plicidade.

— Eu sou tão infeliz — disse a Sra. Packington. — Sempre fui uma esposa dedicada para George. Gastei as minhas unhas até o sabugo nos primeiros anos da nossa vida. Eu o ajudei a vencer. Nunca olhei para outro homem. Suas roupas estão sempre em ordem, a comida é boa, cuido muito bem da casa, e com economia. E agora que superamos as dificuldades e poderíamos nos divertir, sair um pouco e fazer todas as coisas que eu tinha von­tade de fazer algum dia… vai acontecer isso! — ela en­goliu em seco.

O Sr. Parker Pyne concordou gravemente

— Pode ficar certa de que compreendo perfeitamente o seu caso.

— E… pode fazer alguma coisa? — ela quase sus­surrou a pergunta.

— Certamente, minha cara senhora. Há cura. Cer­tamente que há cura.

— E qual é? — ela aguardava ansiosa, os olhos ar­regalados.O Sr. Parker Pyne falou com uma voz calma e firme.

— A senhora vai se colocar em minhas mãos, e meus ho­norários serão de duzentos guinéus.

— Duzentos guinéus!

— Exatamente. A senhora pode pagar isto, Sra. Packington. Pagaria por uma operação. A felicidade é tão importante quanto a saúde do corpo.

— Suponho que vou pagar depois.

— Pelo contrário — disse o Sr. Parker Pyne. — A senhora vai me pagar adiantado.

A Sra. Packington se levantou — Não vejo por que…

— A senhora teme comprar gato por lebre? — disse o Sr. Pyne jovialmente. — Bem, talvez a senhora tenha razão. É muito dinheiro para arriscar. A senhora tem que confiar em mim. Pagar e correr o risco. São estas as minhas condições.

— Duzentos guinéus!

— Exatamente. Duzentos guinéus. É muito dinheiro.

         Bom dia, Sra. Packington. Me avise se mudar de idéia — apertou-lhe a mão, sorrindo, imperturbável. Depois que ela saiu, apertou um botão na sua mesa. Uma moça de óculos e ar severo respondeu ao chamado.

— Um fichário, por favor, Srta. Lemon. E pode também avisar a Claude que eu talvez vá precisar dele brevemente.

— Uma nova cliente?

— Uma nova cliente. Por enquanto ela está relu­tante, mas vai voltar. Provavelmente hoje à tarde, lá pelas quatro horas. Pode deixar entrar.

— Esquema A?

— Esquema A, é lógico. É engraçado como todo mundo pensa que o seu próprio caso é único. Bom, avise Claude. Diga-lhe para não parecer muito exótico. Nada de perfume, e é melhor ele cortar o cabelo. Passavam quinze minutos das quatro horas quando a Sra. Packington entrou de novo no escritório do Sr. Parker Pyne. Tirou da bolsa um livro de cheques, pre­encheu um deles e o entregou. Em troca obteve um re­cibo.

— E agora? — a Sra. Packington olhou esperançosa para ele.

— Agora — disse o Sr. Pyne sorrindo, — a senhora vai voltar para casa. Pelo primeiro correio de amanhã vai receber algumas instruções que eu gostaria muito de ver cumpridas. A Sra. Packington voltou para casa num estado de alegria antecipada. O Sr. Packington voltou com ar de­fensivo, pronto para discutir a situação, caso a cena da manhã fosse reaberta. Ficou aliviado, entretanto, ao ver que a mulher não estava com espírito combativo. Ela parecia estranhamente pensativa. George ficou ouvindo rádio, imaginando se aquela pobre e querida Nancy consentiria que ele lhe desse um casaco de peles. Ele sabia que ela era muito orgulhosa. Não queria ofendê-la. Apesar disso, ela se queixara do frio. Aquele casaco de lã era tão ordinário; nem a pro­tegia do frio. Talvez ele conseguisse convencê-la, talvez… Breve eles poderiam novamente sair juntos à noite. Era um prazer sair com uma moça assim e levá-la a um dos restaurantes da moda. Ele se sentia invejado por muitos rapazes. Ela era extraordinariamente bonita. E gostava dele. Para ela — como já lhe dissera — ele não era nem um pouquinho velho. Levantou os olhos e percebeu o olhar da mulher. Sentiu-se repentinamente culpado e isto o aborreceu. Que mulher intolerante era Maria! Negava-lhe até um pinguinho de felicidade. Desligou o rádio e foi para a cama. A Sra. Packington recebeu duas cartas inesperadas, na manhã seguinte. Uma delas era um impresso confir­mando uma hora marcada num conhecido especialista de beleza. A segunda marcava uma hora com uma costu­reira. A terceira era do Sr. Parker Pyne, solicitando o prazer de sua companhia para um almoço no Ritz na­quele dia. O Sr. Packington avisou que talvez não pudesse vir jantar em casa, pois tinha que ver um homem de ne­gócios. A Sra. Packington abanou a cabeça distraidamente, e ele saiu de casa satisfeito por ter escapado da tempestade. O especialista de beleza foi admirável:

— Mas que negligência! Por quê? Por que, Madame? Há muito tem­po que a senhora devia ter feito alguma coisa. Feliz­mente, ainda não é tarde! Uma porção de coisas foram aplicadas sobre o seu rosto; ele foi massageado, apertado e tratado a vapor. Aplicaram-lhe uma máscara de lama. Aplicaram-lhe cremes diversos. Passaram pó-de-arroz. E depois houve uma série de retoques finais. Por fim lhe deram um espelho. Acho que estou mes­mo parecendo mais moça, pensou ela. A hora com a costureira foi igualmente excitante. Saiu de lá se sentindo elegante, atualizada, no rigor da moda. A uma e meia da tarde, a Sra. Packington chegava ao Ritz. O Sr. Parker Pyne, impecàvelmente vestido, e envolto numa aura de serena confiança, estava espe­rando por ela.

—Encantadora — disse, com um olho experiente a examiná-la da cabeça aos pés.— Me antecipei e lhe en­comendei um White Lady. A Sra. Packington não tinha o hábito de tomar co­quetéis, mas não disse nada. Enquanto bebia cautelosa­mente o excitante líquido, ouvia o seu paciente instrutor.

— Seu marido, Sra. Packington — disse o Sr. Pyne, —vai ser obrigado a ficar em guarda. Compreendeu? Se interessar. Para ajudá-la, vou apresentá-la a um jo­vem amigo meu. A senhora vai almoçar com ele hoje. Neste instante entrou um rapaz, olhando de um lado para outro. Ao avistar o Sr. Parker Pyne, caminhou em sua direção, com elegância.

— O Sr. Claude Luttrell, Sra. Packington.O Sr. Claude Luttrell talvez ainda não tivesse trinta anos. Era atraente, desembaraçado, impecàvelmente ves­tido, extremamente bonito.

— Muito prazer em conhecê-la — murmurou. Três minutos depois, a Sra. Packington estava fren­te a frente com seu novo mentor, numa pequena mesa para dois. Estava um pouco tímida no início, mas o Sr. Lut­trell logo a colocou à vontade. Ele conhecia Paris muito bem e passara um bom tempo na Riviera. Perguntou à Sra. Packington se ela gostava de dançar. Ela disse que gostava, mas quase não saía para dançar, atualmente, porque o Sr. Packington não gostava muito de sair de noite.

— Mas ele não pode ser tão cruel assim, a ponto de prendê-la em casa — disse Claude Luttrell, sorrindo e mostrando uma deslumbrante fileira de dentes. — As mulheres não devem mais tolerar o ciúme masculino, em nossos dias. A Sra. Packington quase disse que o problema não era o ciúme, mas as palavras não saíram. Apesar de tudo, a idéia era agradável. Claude Luttrell falou superficialmente de boates. Fi­cou combinado que na noite seguinte a Sra. Packington e o Sr. Luttrell iriam conhecer o popular Arcanjo Menor.A Sra. Packington se sentia um pouco nervosa ante a perspectiva de anunciar o fato ao marido. Imaginou que George ia achar muito estranho e talvez ridículo. Mas teve sorte. Estava muito nervosa para falar com ele durante o café da manhã, e lá pelas duas horas da tarde um telefonema lhe informou que o Sr. Packington ia jan­tar na cidade.A noitada foi um sucesso. A Sra. Packington dan­çava muito bem quando era moça, e, sob a sábia orien­tação de Claude Luttrell, não demorou a aprender os passos modernos. Ele lhe deu os parabéns pelo vestido e pelo penteado. (Tinham-lhe marcado uma hora na­quela manhã com um dos cabeleireiros da moda). Ao se despedir, ele beijou a sua mão de uma maneira eletrizante. Há muitos anos que a Sra. Packington não passa­va uma noite tão divertida.Seguiram-se dez dias fantásticos. A Sra. Packington almoçava, lanchava, dançava tango, jantava, valsava e ceava. Ficou sabendo tudo sobre a triste infância de Claude Luttrell. Conheceu as desafortunadas circunstân­cias nas quais o pai perdera todo o seu dinheiro. Ouviu a história do trágico romance que lhe amargurava os sentimentos em relação às mulheres em geral.No décimo primeiro dia, eles foram dançar no Almi­rante Vermelho. A Sra. Packington viu seu marido antes que ele a visse. George estava com a moça do escritório. Os dois casais estavam dançando.

— Olá, George — disse baixinho a Sra. Packington, quando passou por ele. Foi com certa satisfação que ela viu o rosto de seu marido ficar primeiro vermelho e depois roxo de espanto. Além do espanto, havia uma expressão de quem descobre um erro. A Sra. Packington se sentiu divertidamente dona da situação. Coitado do George! De volta à sua mesa, ela se pôs a observá-lo. Como estava gordo, como estava ca­reca, como cambaleava! Ele dançava como há uns vinte anos atrás. Coitado, que força estava fazendo para pa­recer jovem! E aquela pobre moça que dançava com ele e fingia que estava gostando. Ela agora parecia muito chateada, o rosto por cima do ombro dele para que ele não pudesse vê-lo.A Sra. Packington pensou muito satisfeita que a sua situação era bem mais invejável. Olhou de relance para o maravilhoso Claude, agora taticamente em silêncio. Como ele a compreendia bem! Nunca discordava dela — os maridos sempre discordam depois de alguns anos. Tornou a olhar para ele. Seus olhos se encontraram. Ele sorriu; seus lindos olhos escuros, tão melancólicos, tão românticos, olharam ternamente dentro dos dela.

— Vamos dançar outra vez? — murmurou ele. Dançaram novamente. Era o paraíso. Ela sentia o olhar apoplético de George a segui-los. A idéia tinha sido dela, ela se lembrava, de provocar ciú­mes em George. Há tanto tempo! Mas agora ela não queria mais despertar os ciúmes de George. Poderia abor­recê-lo. Por que aborrecê-lo, afinal de contas? Coitadi­nho! Todo mundo estava tão feliz…O Sr. Packington já estava em casa há uma hora quando a Sra. Packington entrou. Ele parecia confuso e inseguro.

— Hum — resmungou. — Afinal você chegou.

A Sra. Packington atirou longe um xale que lhe ti­nha custado quarenta guinéus, naquela mesma manhã.

— É — disse sorrindo, — cheguei.

George tossiu — Er… foi estranho encontrar você.

— Foi mesmo, não é? — disse a Sra. Packington.

— Eu… bem, eu pensei que seria um gesto delicado da minha parte levar aquela moça a algum lugar. Ela tem tido tantos problemas em casa. Eu pensei. .. bem, delicadeza, você compreende. A Sra. Packington fez que sim com a cabeça. Pobre George — saltitando e se entusiasmando e tão satisfeito consigo mesmo.

— Quem era aquele camarada que estava com você? Eu não o conheço, conheço?— Chama-se Luttrell. Claude Luttrell.— Como foi que você o conheceu?

— Oh, alguém me apresentou — disse a Sra. Packington vagamente.

— É esquisito você sair dançando por aí… na sua idade. Não vá ficar ridícula, minha querida. A Sra. Packington sorriu. Ela estava se sentindo muito satisfeita, com o mundo inteiro paria dar a res­posta óbvia. — Uma mudança é sempre agradável — disse amistosamente.— Você precisa ter cuidado, sabe? Há uma porção destes dançarinos profissionais por aí. Mulheres de meia-idade às vezes fazem papéis ridículos. Estou só lhe avi­sando, minha cara. Não gostaria de ver você fazendo o que não deve.

— Acho muito bom o exercício — disse a Sra. Pack­ington.

— Hum. .. bom…— Espero que você também ache — disse simpática a Sra. Packington. — O importante mesmo é a gente se sentir feliz, não é? Me lembro que você me disse isso há uns dez dias.O marido olhou rapidamente para ela, mas não ha­via nem uma ponta de sarcasmo na sua expressão. Ela bocejou.

— Vou me deitar. Antes que eu me esqueça, George, tenho sido horrivelmente extravagante neste últimos dias. Algumas contas terríveis vão chegar. Você não se importa, não é?

— Contas? — perguntou o Sr. Packington.

— É. Vestidos. E massagens. E tratamento para os cabelos. Horrivelmente extravagante… mas eu sei que você não se importa…Ela subiu as escadas. O Sr. Packington ficou de boca aberta. Maria tinha sido maravilhosamente gentil em re­lação ao que acontecera aquela noite; parecia não ter dado a menor importância. Mas era uma pena que de re­pente ela começasse a gastar dinheiro. Maria — um mo­delo de economia! Mulheres! George Packington balançou a cabeça. As confusões em que os irmãos daquela garota se tinham metido nos últimos dias… Bem, ele continuava disposto a ajudá-la. Apesar de tudo… bolas! As coisas já não estavam indo assim tão bem lá pela cidade. Suspirando, o Sr. Packington subiu as escadas de­vagar. Às vezes, só mais tarde prestamos atenção a pala­vras que na hora não pareceram importantes. Só na ma­nha seguinte certas palavras que o Sr. Packington dis­se entraram realmente na consciência de sua mulher. Dançarinos profissionais; mulheres de meia-idade; cair no ridículo. A Sra. Packington era uma mulher corajosa. Sen­tou-se e enfrentou os fatos. Um gigolô. Ela sempre leu histórias de gigolôs nos jornais. Leu também a respeito de loucuras cometidas por mulheres de meia-idade. Claude seria um gigolô? Ela calculou que sim. Mas então como é que os gigolôs eram sempre pagos e era Claude quem pagava todas as despesas? Sim, mas era o Sr. Parker Pyne quem pagava, não Claude — ou melhor, eram os seus próprios duzentos guinéus. Seria ela uma estúpida mulher de meia-idade? Será que Claude Luttrell ria dela pelas costas? A este pensa­mento seu rosto ficou vermelho. Bem, e se fosse mesmo? Claude era um gigolô. Ela era uma ridícula mulher de meia-idade. Logo ela devia lhe dar um presente. Uma cigarreira de ouro, qualquer coisa no gênero. Um impulso excêntrico levou-a até o Asprey’s. Es­colheu e comprou uma cigarreira. Ia se encontrar com Claude para almoçar no Claridge. Quando tomavam o café ela mexeu na bolsa.

— Um presentinho — murmurou. Ele olhou para ela, franziu as sobrancelhas.

— Para mim?

— É. Eu… espero que você goste. Ele pegou a cigarreira e a empurrou violentamente para o outro lado da mesa.

— Por que você me deu isso? Não quero. Leve de volta. Leve de volta! — estava zan­gado. Seus olhos escuros faiscavam.

— Desculpe — murmurou ela, e a colocou de volta na bolsa. Houve um certo constrangimento entre os dois na­quele dia.

Na manhã seguinte ele telefonou — Preciso ver vo­cê. Posso ir à sua casa hoje à tarde? Ela marcou para as três da tarde. Claude chegou muito pálido, muito tenso. Cumpri­mentaram-se. O constrangimento se tornou mais evi­dente.

De repente ele se pôs de pé e ficou em frente dela — O que é que você pensa que eu sou? Foi isso que eu vim lhe perguntar. Nós temos sido amigos, não é mesmo? Sim, amigos… Mas apesar de tudo você pensa que eu sou… é, é isso mesmo, um gigolô. Uma criatura que vive às custas de mulheres. É isso que você pensa, não é?

— Não, não! Ele interrompeu seu protesto. Seu rosto estava ainda mais pálido — É isso mesmo que você pensa! Bom, é ver­dade. Foi isso que eu vim dizer. É verdade! Eu recebi or­dens para sair com você, para lhe fazer a corte, fazer vo­cê esquecer seu marido. É este o meu emprego. Um em­prego abjeto, não é?

— Por que você me contou isso tudo? — perguntou ela.

— Porque eu estou cheio dessa história toda. Não posso mais continuar. Não com você. Você é diferente. Você é o tipo da mulher em quem eu pude confiar, acre­ditar, gostar. Você vai pensar que eu estou dizendo isso porque é parte do negócio — aproximou-se dela.

— Vou lhe provar que não é verdade. Vou-me embora por sua causa. Vou tentar ser um homem de verdade, em vez da criatura repulsiva que fui até hoje. De repente ele a tomou nos braços. Seus lábios se apertaram contra os dela. Soltou-a e se afastou um pouco.

— Adeus. Sempre fui abjeto. Sempre. Mas juro que de hoje em diante vai ser diferente. Se lembra que você falou uma vez que gostava de ler os Anúncios Pessoais? No dia de hoje, todos os anos, você vai encontrar um re­cado meu dizendo que eu sempre me lembro de você e que continuo no bom caminho. Você vai ver então o quanto significou para mim. Mais uma coisa. Não quero nada de você. Mas quero que guarde alguma coisa minha — tirou do dedo um anel de ouro.

— Foi de minha mãe. Quero que você fique com ele. Agora, adeus…George Packington voltou cedo para casa. Encon­trou a mulher sentada em frente da lareira com um olhar diferente. Falou gentilmente com ele, mas parecia es­tranha e alheia à sua presença.

— Olhe aqui, Maria — começou ele, aos arrancos. — Aquela moça.

— Sim, querido?— Eu… eu nunca quis aborrecer você, sabe. Com ela. Não há nada.

— Eu sei. Fui uma boba. Pode vê-la quantas vezes quiser, se isto faz você ficar feliz. Tais palavras deviam ter alegrado George Packing­ton, é lógico. Por mais estranho que possa parecer, elas o aborreceram. Como podia ele se divertir saindo com a moça, se a sua própria mulher praticamente o obrigava a isto? Francamente isso nem era decente! Toda aquela sensação de poder, de homem forte que brincava com fogo, se desvaneceu e morreu melancòlicamente. De re­pente, George Packington se sentiu cansado, esvaziado. A garota era muito esperta…

— Nós podíamos sair um pouco, se você quisesse, Maria — sugeriu timidamente.— Não se preocupe comigo. Estou muito feliz.— Mas eu gostaria de levar você para passear; po­díamos ir para a Riviera. A Sra. Packington sorriu levemente. Pobre George… Ela se orgulhava dele. Era um ve­lhinho tão terno! Não havia na vida um segredo tão lin­do quanto o dela. Ela sorriu ainda com mais ternura.

— Seria ótimo, querido — disse.

O Sr. Parker Pyne estava falando com a Srta. Lemon — Despesas com os divertimentos?— Cento e duas libras, quatorze shillings e seis pence. A porta abriu e entrou Claude Luttrell. Estava com um ar amuado.

— Bom dia, Claude — disse Parker Pyne. — Foi tudo bem?

— Acho que sim.— O anel? Qual foi o nome que você mandou gra­var, por falar nisso?— Matilda — disse Claude taciturno. — 1899.

— Ótimo. E as palavras do anúncio?— Continuo bem. Ainda me lembro de você. Claude.— Tome nota, por favor, Srta. Lemon. Na coluna dos Anúncios Pessoais. No dia três de novembro… deixe ver… despesas de cento e duas libras, quatorze shillings e seis pence. Por dez anos, acho. Isto nos deixa um lucro liquido de noventa e duas libras, dois shillings e quatro pence. Correto. Perfeitamente correto. A secretária saiu.— Olhe aqui — explodiu Claude. — Não gosto disso. É um jogo sujo.

— Meu rapazinho!— Jogo sujo. Uma mulher decente… uma mulher direita. Contar todas estas mentiras. Enganá-la com es­tas histórias sentimentais, que horror. Isso me deixou doente! Parker Pyne endireitou os óculos e olhou para Clau­de com uma espécie de interesse científico.

— Meu caro — disse secamente, — não me recordo de nenhum mo­mento em que a sua consciência o tenha preocupado em toda a sua… ahn… notória carreira… Seus negócios na Riviera foram particularmente inescrupulosos, e a sua exploração da Sra. Hattie West, mulher do Rei dos Pepinos da Califórnia, foi notável, pelo instinto merce­nário e empedernido que você demonstrou.

— Bem, estou começando a me sentir diferente — resmungou Claude. — Não é direito… esse tipo de jogo.

Parker Pyne falou num tom de voz como o do pro­fessor que repreende o aluno favorito — Claude, meu caro, você praticou uma boa ação. Deu a uma mulher in­feliz o que todas as mulheres precisam — um romance. Uma mulher pode destruir uma paixão e não aproveitar nada de bom dela, mas um romance pode ser guardado com carinho e relembrado por muitos anos. Eu conheço a natureza humana, meu jovem, e posso lhe garantir que uma mulher alimentará um romance por muitos anos — pigarreou. — Cumprimos com pleno êxito nossa missão com a Sra. Packington.

— Bem — murmurou Claude. — Mas isso não me agrada — e deixou a sala.

Parker Pyne apanhou um fichário novo numa ga­veta. Escreveu: Curiosos vestígios de consciência num gigolô empedernido. Nota: acompanhar o desenvolvi­mento.

 

 

 

 

 

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