Agatha Christie

Por um ou dois dias depois da visita do falso atendente do hospício, cultivei
esperanças de que ele pudesse retornar… e não tirei o pé do apartamento nem por
um segundo. Até onde ia minha percepção, ele não tinha razão para suspeitar de
que descobríramos seu disfarce. Ele poderia, pensava eu, retornar e tentar
remover o corpo, mas Poirot ridicularizava meu raciocínio:
– Mon ami – disse ele –, se faz questão, pode esperar aqui, mas eu é que
não vou perder meu tempo com isso.
– Mas, então, Poirot – argumentei –, por que ele correu o risco de aparecer?
Se tencionasse voltar mais tarde para levar o corpo, sua visita teria algum
sentido. Pelo menos estaria eliminando as provas contra si. Caso contrário, não
me parece que ele tenha obtido alguma coisa.
Poirot deu a sua encolhida de ombros mais francesa.
– Mas você não enxerga com os olhos do Número Quatro, Hastings – disse
ele. – Fala de provas, mas dispomos de que provas contra ele? É verdade, temos
um corpo, mas nem ao menos podemos provar que ele foi assassinado… ácido
prússico, quando inalado, não deixa vestígios. Além disso, não podemos
encontrar ninguém que tenha visto alguém entrando no apartamento em nossa
ausência e não descobrimos nada sobre as ações de nosso amigo Mayerling…
“– Não, Hastings, o Número Quatro não deixou pistas e sabe disso.
Podemos classificar sua visita como de reconhecimento. Talvez ele quisesse
certificar-se de que Mayerling estava morto, mas é mais provável, a meu ver, que
tenha vindo para conhecer Hercule Poirot e conversar com o único adversário
que considera temível.”
O raciocínio de Poirot parecia tipicamente egocêntrico, mas evitei discutir.
– E quanto ao inquérito? – indaguei. – Imagino que você vá explicar as
coisas bem claramente e dar à polícia uma descrição completa do Número
Quatro.
– Com que objetivo? Podemos apresentar algo capaz de impressionar o juiz
investigador e seu júri de britânicos criteriosos? Não. Vamos permitir apenas que
o caso seja rotulado de “morte acidental”. E, quem sabe, embora eu não tenha
tanta esperança, nosso esperto assassino dê tapinhas nas próprias costas
congratulando-se por ter enganado Hercule Poirot no primeiro round.
Como de costume, Poirot estava certo. Não vimos mais a cara do homem
do hospício, e o inquérito (ao qual eu dei importância, mas ao qual Poirot não se
deu ao trabalho de comparecer) não despertou o interesse público.
Tendo em vista a viagem planejada à América do Sul, Poirot desvencilharase dos compromissos antes de minha chegada e não dispunha de nenhuma
investigação no momento. Por isso, ele passava a maior parte do tempo no
apartamento. Entretanto, eu não desfrutava muito de sua companhia. Ele ficava
afundado na poltrona e desencorajava minhas tentativas de conversar.
Então, certa manhã, uma semana depois do assassinato, ele me perguntou se
eu me importaria de acompanhá-lo numa visita que ele gostaria de fazer. Fiquei
contente, pois achava que ele estava cometendo um engano ao tentar resolver as
coisas sem pedir a ajuda de ninguém. Eu desejava discutir o caso com ele. Mas
descobri que ele não estava a fim de conversa. Até mesmo quando perguntei
aonde íamos, ele não me respondeu.
Poirot adora ser misterioso. Nunca compartilha informações até o último
momento possível. Nesta ocasião, após pegarmos sucessivamente um ônibus e
dois trens e chegarmos à vizinhança de um dos subúrbios mais lúgubres do Sul
de Londres, enfim consentiu em explicar as coisas.
– Hastings, vamos falar com o único homem na Inglaterra que conhece a
maior parte da vida subterrânea da China.
– É mesmo? E quem ele é?
– Você nunca ouviu falar dele… um tal de sr. John Ingles. Para todos os
efeitos, é um funcionário público de intelecto mediano, com a casa repleta de
raridades chinesas com as quais entedia amigos e conhecidos. No entanto, quem
sabe do assunto garantiu-me que o único homem capaz de me fornecer as
informações que procuro é esse mesmo John Ingles.
Instantes depois, subíamos as escadas do solar dos Loureiros, como a
residência do sr. Ingles era conhecida. Pessoalmente, não percebi nenhum pé de
louro por perto, então deduzi que o nome provinha da usual nomenclatura
obscura dos subúrbios.
Fomos recebidos por um criado chinês de rosto impassível e encaminhados
sem delongas à presença do seu mestre. O sr. Ingles era um homem de ombros
largos, de tez amarelada, com olhos encovados, de um caráter estranhamente
reflexivo. Levantou-se para nos cumprimentar, pondo de lado a carta aberta que
segurava. Referiu-se a ela após as boas-vindas.
– Sentem-se, por favor. Hasley me conta que os senhores desejam algumas
informações e que eu posso ser útil no assunto.
– É verdade, monsieur. Gostaria de saber, por acaso já ouviu falar num
homem chamado Li Chang Yen?
– Singular… singularíssimo. Onde os senhores ouviram falar nesse homem?
– Então o senhor o conhece?
– Uma vez nos encontramos. Sei alguma coisa sobre ele… não tanto quanto
eu gostaria. Mas causa-me espécie que alguém mais na Inglaterra tenha ouvido
falar nele. À sua maneira, é um grande homem (da classe dos mandarins e tudo o
mais); mas o ponto crucial não é esse. Há boas razões para se supor que ele seja
o homem por trás de tudo.
– Por trás de tudo o quê?
– De tudo. O desassossego global, os problemas trabalhistas que acossam
todas as nações e as revoluções que irrompem em algumas delas. Existem
pessoas, não alarmistas, que sabem do que estão falando. Elas afirmam que há
uma força nos bastidores cujo objetivo é nada mais nada menos do que a
desintegração da civilização. Sabe, na Rússia havia muitos sinais de que Lênin e
Trótski eram meros fantoches com ações comandadas por outro cérebro. Não
disponho de prova definitiva, mas estou bem convencido de que esse cérebro era
o de Li Chang Yen.
– Ah, pode parar – protestei. – Não acha isso um pouco forçado? Desde
quando um chinês iria apitar alguma coisa na Rússia?
Poirot olhou-me com desagrado.
– Para você, Hastings – comentou ele –, tudo que não venha da sua própria
imaginação é forçado. De minha parte, concordo com este cavalheiro. Por favor,
continue, monsieur.
– O que ele ambiciona alcançar exatamente admito que não sei ao certo –
prosseguiu o sr. Ingles –, mas calculo que sua doença seja a mesma que
acometeu os grandes cérebros desde Akbar, Alexandre até Napoleão: sede de
poder e de supremacia pessoal. Até os tempos modernos, as conquistas
dependiam da força armada. Porém, neste século de inquietude, um homem
como Li Chang Yen pode lançar mão de outros meios. Pelas evidências que
tenho, ele dispõe de verbas ilimitadas para suborno e propaganda ideológica. Há
indícios de que ele controla alguma força científica com cujo poder o mundo
jamais sonhou.
Poirot prestava muita atenção nas palavras do sr. Ingles.
– E na China? – perguntou ele. – Ele atua por lá também?
O outro assentiu com ênfase e afirmou:
– Embora eu não tenha prova para apresentar perante os tribunais, afirmo
isso por conhecimento próprio. Conheço pessoalmente cada homem importante
da China de hoje e posso garantir aos senhores: os homens que mais aparecem
na mídia têm pouca ou nenhuma personalidade. São marionetes manipuladas
pelos fios puxados por mãos de mestre, e essas mãos pertencem a Li Chang Yen.
É dele o cérebro controlador do Oriente nos dias de hoje. Não entendemos o
Oriente… e nunca vamos entender. Mas Li Chang Yen é a sua força motriz. Não
que ele procure a luz dos holofotes… não, isso nem pensar. Ele nunca sai de seu
palácio em Pequim. Mas ele mexe os pauzinhos (isso mesmo, mexe os
pauzinhos) e coisas acontecem longe dali.
– E ele não tem nenhum oponente? – indagou Poirot.
O sr. Ingles inclinou o corpo à frente na poltrona.
– Nos últimos quatro anos, quatro homens tentaram enfrentar Li Chang Yen
– disse ele, devagar. – Homens de caráter, honestidade e capacidade cerebral.
Todos poderiam ter interferido nos planos dele.
Fez uma pausa.
– E então? – perguntei.
– Então, todos estão mortos. Um deles escreveu um artigo conectando o
nome de Li Chang Yen às revoltas em Pequim. Dois dias depois, foi esfaqueado
na rua. O assassino nunca foi capturado. As ofensas dos outros três foram
semelhantes. Numa conferência, num artigo ou numa conversa, todos ligaram o
nome de Li Chang Yen a levantes e rebeliões. Em menos de uma semana depois
da indiscrição, estavam mortos. Um foi envenenado; outro morreu de cólera, um
caso isolado, pois não havia epidemia; e o último foi encontrado morto na cama.
A causa dessa última morte nunca foi determinada, mas o legista que examinou o
corpo me contou que ele foi queimado e paralisado ao receber uma carga elétrica
de incrível potência.
– E Li Chang Yen? – indagou Poirot. – Como seria de se esperar, nenhum
vestígio conduz a ele, mas existem indícios, não?
O sr. Ingles deu de ombros.
– Indícios… ah sim, com certeza. Uma vez encontrei um homem prestes a
falar, um jovem e promissor químico chinês, apadrinhado por Li Chang Yen. Um
dia, esse químico me procurou. Percebi que ele estava à beira de um ataque de
nervos. Aludiu aos experimentos em que andava envolvido no palácio de Li
Chang Yen, sob as ordens do mandarim… Os experimentos tinham como cobaias
trabalhadores chineses e revelavam o mais revoltante desdém à vida e ao
sofrimento humanos. Ele se encontrava com os nervos em frangalhos, num
estado de terror dos mais deploráveis. Deixei-o descansando em minha casa,
num quarto do segundo piso, planejando interrogá-lo no dia seguinte… Mas, é
claro, isso foi estupidez minha.
– Como eles o pegaram? – quis saber Poirot.
– Nunca vou saber. Acordei aquela noite com minha casa em chamas e tive
sorte de escapar com vida. De acordo com a investigação, um incêndio de
incrível intensidade começou no segundo andar. Os restos mortais de meu amigo
químico foram carbonizados.
Pude notar, pelo ardor com que o sr. Ingles estivera falando, que aquele era
um de seus assuntos preferidos. Ao que parece, ele também se deu conta de sua
empolgação, pois riu como quem se desculpa.
– Mas, é claro – disse ele –, não tenho provas. E os senhores, assim como
os outros, vão dizer que é só uma ideia fixa.
– Ao contrário – falou Poirot, calmamente. – Temos todas as razões para
acreditar em seu relato. Estamos bem interessados em Li Chang Yen.
– Muito estranho os senhores saberem da sua existência. Não imaginava
que uma vivalma em Londres tivesse ouvido falar nele. Seria bom saber onde foi
que os senhores ouviram falar nele… sem querer ser indiscreto.
– Não está sendo nem um pouco indiscreto, monsieur. Um homem
refugiou-se em meus aposentos. Estava sob um transe intenso, mas conseguiu
nos contar o suficiente para despertar nosso interesse em Li Chang Yen.
Descreveu quatro pessoas, os Quatro Grandes, uma organização até então nunca
sonhada. Número Um, Li Chang Yen, Número Dois, um americano
desconhecido, Número Três, uma mulher francesa igualmente desconhecida.
Quanto ao Número Quatro, pode ser chamado de executivo da organização: o
Destruidor. Meu informante morreu. Me diga, monsieur, já ouviu falar na
expressão os Quatro Grandes?
– Não em conexão com Li Chang Yen. Não, não posso afirmar isso. Mas
ouvi ou li algo, não faz muito tempo… e também numa conexão esquisita. Ah, já
sei.
Ergueu-se, cruzou a sala e parou em frente a um armário embutido
marchetado em ouro – um móvel extravagante, até onde consegui ver. Retornou
com uma carta na mão.
– Aqui está. Enviada por um velho marinheiro que conheci certa vez em
Shangai. Velho beberrão inveterado, eu diria. Creditei o conteúdo da carta aos
delírios do alcoolismo.
Leu em voz alta:
– “Prezado Senhor: talvez não se lembre de mim, mas o senhor me ajudou
uma vez em Shangai. Ajude-me outra vez agora. Preciso de dinheiro para sair do
país. Estou bem escondido aqui, espero, mas a qualquer hora eles podem me
achar. Os Quatro Grandes, quero dizer. É uma questão de vida ou morte. Tenho
bastante dinheiro guardado, mas não me atrevo a movimentá-lo nem a chegar até
ele, com medo de chamar a atenção deles. Por favor, me envie duzentas libras
em espécie. Juro que vou reembolsar cada centavo. Seu criado, sir Jonathan
Whalley.”
– Postada em Granite Bungalow, Hoppaton, Dartmoor – explicou o sr.
Ingles. – Receio ter considerado essa mensagem um método rudimentar de me
aliviar de duzentas libras das quais eu nunca mais veria a cor. Se for de alguma
utilidade para os senhores…
Esticou o braço oferecendo-nos a carta.
– Je vous remercie, monsieur. Vou partir a Hoppaton à l’heure même.
– Puxa vida, isso está ficando interessante. Posso ir com os senhores?
Alguma objeção?
– Ficarei encantado com sua companhia, mas devemos partir logo. Se tudo
correr bem, chegaremos em Dartmoor ao anoitecer.
John Ingles não retardou nossa partida por mais que dois minutos, e em
breve nós três estávamos no trem afastando-nos de Paddington rumo a West
Country. Hoppaton era uma pequena aldeia apinhada numa ravina bem nos
limites do terreno pantanoso. Ficava a quinze quilômetros de carro a partir de
Moretonhampstead. Chegamos perto das oito horas da noite; mas, como era mês
de julho, ainda era dia claro.
Percorremos a estreita rua do vilarejo e então paramos para pedir
orientações a um velho camponês.
– Granite Bungalow – disse o velho, refletindo. – Tão procurando Granite
Bungalow, é isso?
Garantimos a ele que era isso que queríamos.
O velho apontou um chalezinho cinza no fim da rua.
– O bangalô fica em frente, ali adiante. Querem falar co’ inspetor, querem?
– Que inspetor? – indagou Poirot bruscamente. – O que o senhor quer
dizer?
– Não tão sabendo do crime, então? Negócio chocante, tá parecendo.
Sangue pra tudo que é lado, tão dizendo.
– Mon Dieu! – murmurou Poirot. – Esse inspetor local, preciso falar com
ele imediatamente.
Cinco minutos depois, estávamos em um gabinete com o inspetor
Meadows. No começo, o inspetor não se mostrou muito colaborativo, mas, ao
mencionarmos o nome mágico do inspetor Japp da Scotland Yard, ele mudou de
atitude.
– Sim, sir. Assassinado esta manhã. Um negócio chocante. Ligaram para
Moreton e eu vim na mesma hora. No começo, parecia um caso misterioso. O
velho (tinha uns setenta anos, sabe, e era chegado numa bebida, pelo que me
disseram) jazia no piso da sala de estar. Tinha um ferimento na cabeça e a
garganta cortada de orelha a orelha. Sangue por tudo, os senhores podem
imaginar. A mulher que cozinhava para ele, Betsy Andrews, nos contou que
várias estatuetas chinesas feitas de jade, que o patrão lhe dissera que eram muito
valiosas, tinham desaparecido. Isso, é claro, levava a crer num latrocínio, mas
havia todo o tipo de dificuldade no caminho dessa solução. O ancião tinha dois
empregados em casa: Betsy Andrews, uma senhora aqui mesmo de Hoppaton, e
Robert Grant, uma espécie tosca de criado. Grant havia saído para buscar o leite
na fazenda, coisa que faz todos os dias, e Betsy estava conversando na casa da
vizinha. Ao que consta, ela ficou fora só uns vinte minutos (entre dez e dez e
meia), e o crime deve ter acontecido nesse período. Grant voltou antes para casa.
Entrou pela porta de trás, que estava aberta (ninguém tranca as portas por aqui,
pelo menos não em plena luz do dia), colocou o leite na despensa e foi até o
quarto dele ler jornal e fumar um cigarro. Ele não tinha ideia de que algo
incomum tivesse acontecido… pelo menos é o que ele diz. Então Betsy entra, vai
até a sala de estar, vê o que aconteceu e solta um berro de acordar os mortos. Até
aí, tudo bem. Alguém entrou enquanto os dois estavam fora e fez o serviço no
coitado do velho. Mas logo me chamou a atenção que esse criminoso deve ser
um indivíduo bem sangue frio. Ele teria que ter vindo direto pela rua da vila ou
se esgueirando pelo quintal de alguém. Granite Bungalow tem casas por toda a
volta, como vocês podem notar. Como, então, ninguém viu nada?
O inspetor parou com um gesto peculiar.
– Entendo aonde o senhor quer chegar – disse Poirot. – Quer continuar?
– Bem, sir, negócio suspeito, falei para mim… muito suspeito. E comecei a
olhar a meu redor. Ora, aquelas estatuetas chinesas, por exemplo. Por acaso um
ladrão comum suspeitaria do valor delas? De qualquer forma, foi loucura tentar
uma coisa dessas em plena luz do dia. E se o velho tivesse gritado por socorro?
– Imagino, inspetor – disse o sr. Ingles –, que o ferimento na cabeça tenha
sido infligido antes da morte?
– Exato, sir. Primeiro o tontearam e depois o degolaram. Isso está claro.
Mas como diabo ele veio e foi embora? Num lugarzinho como este, as pessoas
notam estranhos na mesma hora. Então, me ocorreu de repente: ninguém veio.
Dei uma boa olhada nas redondezas. Choveu ontem à noite, e pegadas nítidas
entravam e saíam da cozinha. Na sala de estar, só dois conjuntos de pegadas (as
pegadas de Betsy interrompiam-se na porta): as do sr. Whalley (ele calçava
pantufas) e as de outro homem. O outro homem pisara nas manchas de sangue, e
eu segui o rastro sanguinolento… com sua desculpa, sir.
– Não se incomode – disse o sr. Ingles com um sorriso amarelo. – O
adjetivo é perfeitamente adequado.
– Primeira evidência: rastreei-o até a cozinha, mas não além dela. Segunda
evidência: na moldura da porta de Robert Grant havia uma tênue mancha… uma
tênue mancha de sangue. E a terceira evidência surgiu quando examinei as botas
de Grant (que ele havia tirado) e comparei-as com as marcas. Elas se
encaixavam. Foi um serviço doméstico. Adverti Grant e o coloquei em prisão
preventiva. E o que os senhores acham que encontrei embrulhado na maleta
dele? As pequenas estatuetas de jade e um certificado de soltura. Robert Grant
era também Abraham Biggs, condenado por arrombamento e homicídio há cinco
anos.
O inspetor silenciou, triunfante.
– O que acham disso, cavalheiros?
– Acho – disse Poirot – que aparenta ser um caso bastante óbvio… de uma
obviedade surpreendente, aliás. Esse Biggs, ou Grant, deve ser um homem bem
estúpido e inculto, não?
– Ah, ele é bem isso: um camarada rústico e simples. Sem ideia do que uma
pegada pode significar.
– É evidente que ele não conhece literatura policial! Bem, inspetor, eu lhe
dou meus parabéns. Podemos olhar a cena do crime?
– Eu mesmo vou acompanhá-los até lá agora. Quero que os senhores vejam
aquelas pegadas.
– Eu também gostaria de vê-las. Sim, sim, muito interessante e engenhoso.
Saímos sem demora. O sr. Ingles e o inspetor tomaram a dianteira. Retive
Poirot um pouco para trás, de modo a conseguir conversar com ele sem o
inspetor ouvir.
– O que pensa realmente, Poirot? Há algo mais nisso além do que podemos
ver?
– Esse é o problema, mon ami. Whalley diz claramente na carta dele que os
Quatro Grandes estavam em seu encalço. E você e eu sabemos que os Quatro
Grandes não brincam em serviço. No entanto, tudo indica que esse tal de Grant
cometeu o crime. Por que ele fez isso? Por causa das estatuetas de jade? Ou será
que é um agente dos Quatro Grandes? Confesso que essa última alternativa é a
mais provável. Por mais valioso que fosse o jade, não era provável que um
homem dessa categoria se apercebesse disso… ao menos a ponto de cometer
assassinato. (E essa ideia, par example, não ocorreu ao inspetor.) Ele poderia ter
roubado o jade e fugido em vez de cometer um assassinato brutal. Ah, sim:
receio que nosso amigo de Devonshire não tenha utilizado as pequenas células
cinzentas. Mediu pegadas, mas deixou de pensar e coordenar as ideias com o
método necessário.

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