Agatha Christie

Os ladrões de rádioNa noite após a sua libertação, Halliday dormiu no hotel, no quarto
próximo ao nosso. Durante a noite toda, escutei-o gemendo e falando em meio
ao sono. Sem dúvida a experiência dele na casa de campo havia desestabilizado
seus nervos; na manhã seguinte, fomos incapazes de extrair quaisquer
informações dele. Limitava-se a repetir afirmações sobre o imenso poder à
disposição dos Quatro Grandes e sobre a certeza da vingança que se seguiria
caso ele falasse.
Após o almoço, ele partiu para reencontrar-se com a esposa na Inglaterra,
mas Poirot e eu permanecemos em Paris. Eu estava convicto de que devíamos
tomar providências enérgicas, seja lá quais fossem. A placidez de Poirot me
incomodava.
– Pelo amor de Deus, Poirot – incitei. – Vamos atrás deles.
– Admirável, mon ami, admirável! Ir aonde e atrás de quem? Seja mais
preciso, por favor.
– Atrás dos Quatro Grandes, é claro.
– Cela va sans dire. Mas por onde vamos começar?
– Pela polícia – arrisquei, hesitante.
Poirot sorriu.
– Eles nos acusariam de estarmos fantasiando. Não temos nada concreto…
nada em absoluto. Precisamos esperar.
– Esperar o quê?
– Esperar a próxima jogada deles. Veja bem, na Inglaterra todos entendem e
adoram la boxe. Se um lutador não toma iniciativa, o outro deve fazê-lo. Ao
permitir ao adversário atacar, aprende-se algo sobre ele. Esse é nosso papel:
deixar o oponente atacar.
– Pensa que eles vão atacar? – eu disse sem me convencer.
– Não tenho dúvida alguma. Ora, em primeiro lugar, eles tentaram afastarme de Londres. Esse plano falhou. Então, no caso de Dartmoor, entramos em
cena e salvamos a vítima do patíbulo. E ontem, de novo, interferimos nos planos
deles. Com certeza, não vão deixar por isso mesmo.
Enquanto eu meditava sobre isso, escutou-se uma batida na porta. Sem
esperar por uma resposta, um homem entrou no quarto e fechou a porta atrás
dele. Era um homem alto e magro, com nariz levemente adunco e tez amarelada.
Vestia um casaco abotoado até o queixo; a aba de um chapéu de feltro macio
caía sobre os olhos.
– Queiram me desculpar, cavalheiros, por minha entrada um pouco
descortês – falou ele com voz pausada –, mas meu assunto é de natureza bem
heterodoxa.
Sorrindo, caminhou em direção à mesa e sentou-se perto dela. Eu estava
prestes a me erguer num salto, mas Poirot refreou-me com um gesto.
– Como o senhor diz, monsieur, sua entrada é um pouco descortês. Quer
fazer a bondade de esclarecer a que veio?
– Meu bom sr. Poirot, é muito simples. O senhor tem incomodado meus
amigos.
– De que maneira?
– Vamos, vamos, sr. Poirot. Não se faça de desentendido. Sabe tão bem
quanto eu.
– Depende, monsieur, de que amigos o senhor está falando.
Sem uma palavra, o homem sacou do bolso uma cigarreira. Abriu-a, tirou
quatro cigarros e jogou-os em cima da mesa. Então os apanhou e os colocou de
volta no estojo, que guardou no bolso.
– Arrá! – disse Poirot. – Então é assim? E qual a sugestão de seus amigos?
– A sugestão deles, monsieur, é empregar seus talentos (talentos muito
consideráveis) na detecção de crimes legítimos… é retornar às velhas distrações e
resolver os problemas das damas da sociedade britânica.
– Programinha pacato – disse Poirot. – E supondo que eu não concorde?
O homem fez um gesto eloquente.
– Nesse caso, é claro, lastimaríamos muito – disse ele. – Assim como os
amigos e admiradores do grandioso sr. Hercule Poirot. Mas lástimas, por mais
comoventes que sejam, não ressuscitam ninguém.
– Quanta polidez – disse Poirot, assentindo com a cabeça. – E na hipótese
de que eu aceite?
– Nesse caso estou autorizado a lhe oferecer… uma compensação.
Puxou a carteira e jogou dez notas sobre a mesa. Cada uma de dez mil
francos.
– Isso é apenas uma garantia de nossas boas intenções – disse ele. – Só dez
por cento do que vamos lhe pagar.
– Meu bom Deus – gritei, pondo-me em pé num salto –, vocês ousam
insinuar que…
– Sente-se, Hastings – falou Poirot em tom autoritário. – Controle sua
índole bela e honesta e sente-se. Ao monsieur digo o seguinte. O que me impede
de chamar a polícia para vir lhe prender, enquanto meu amigo evita a sua fuga?
– Faça isso se achar recomendável – disse nosso visitante calmamente.
– Ah! Olhe aqui, Poirot – gritei. – Não aguento mais essa lengalenga. Ligue
para a polícia e vamos acabar logo com isso.
Erguendo-me com rapidez, caminhei, resoluto, até a porta e fiquei com
minhas costas contra ela.
– Parece o caminho óbvio – murmurou Poirot, como se estivesse discutindo
consigo mesmo.
– Mas o senhor desconfia do óbvio, não? – falou nosso visitante, sorrindo.
– Vamos, Poirot – instiguei.
– Será sua responsabilidade, mon ami.
Enquanto ele tirava o fone do gancho, de repente o homem deu um salto
felino em minha direção. Eu estava preparado. Um segundo depois estávamos
engalfinhados, rolando no meio da sala. Então senti o corpo dele escorregar e
amolecer. Aproveitei a vantagem. Ele estrebuchou na minha frente. Em seguida,
no exato instante da vitória, uma coisa extraordinária aconteceu. Senti meu
corpo voando para trás. Dei de cabeça na parede e caí como se fosse um
amontoado confuso. Na mesma hora, levantei, mas a porta fechava-se atrás do
meu ex-adversário. Corri para a porta e tentei abrir, estava chaveada do lado de
fora. Apanhei o telefone da mão de Poirot.
– É da portaria? Parem um homem que está saindo. Alto, de casaco
abotoado até em cima e chapéu macio. É um foragido da justiça.
Poucos minutos depois, escutamos um ruído no corredor. A chave foi
girada, e a porta, aberta. O gerente em pessoa estava no limiar da porta.
– Conseguiram pegar o homem? – gritei.
– Não, monsieur. Ninguém desceu.
– Vocês devem ter passado por ele.
– Não passamos por ninguém, monsieur. É incrível que ele possa ter
escapado.
– Deixaram alguém passar, acho – afirmou Poirot, em sua voz gentil. –
Algum dos empregados do hotel, talvez?
– Só um garçom carregando uma bandeja, monsieur.
– Ah! – disse Poirot, num tom que disse tudo.
Quando enfim os agitados funcionários do hotel se retiraram, Poirot
comentou de si para si:
– Então é por isso que ele usava o casaco abotoado até o queixo.
– Sinto muito mesmo, Poirot – murmurei, bastante abatido. – Achava que
conseguiria dominá-lo sem problemas.
– Sim, aquele foi um golpe japonês, imagino. Não se amofine, mon ami.
Tudo transcorreu conforme o plano… o plano dele. Isso é o que eu queria.
– O que é isso? – perguntei, apanhando um objeto marrom caído no chão.
Era uma carteira fininha de couro marrom que obviamente caíra do bolso de
nosso visitante durante a luta. Continha dois recibos em nome do sr. Felix Laon e
um papel dobrado que fez meu coração acelerar. Meia página de caderno com
poucas palavras rabiscadas a lápis, mas palavras de extrema importância.
– O próximo encontro do conselho será às onze da manhã de sexta-feira na
Rue des Echelles, 34.
A assinatura era um grande número 4.
E hoje era sexta-feira, e o relógio na cornija da lareira marcava dez e meia.
– Meu Deus, que oportunidade! – exclamei. – O destino está em nossas
mãos. Mas precisamos nos apressar. Que sorte tremenda.
– Então foi por isso que ele veio – murmurou Poirot. – Agora percebo tudo.
– Percebe o quê? Vamos, Poirot, não fique aí em devaneios.
Poirot olhou para mim e balançou a cabeça devagar, sorrindo.
– “‘Quer entrar na minha sala?’ – disse a aranha para a mosca.” Não é assim
que diz a canção infantil? Não, não… eles podem ser engenhosos… mas não tão
engenhosos quanto Hercule Poirot.
– Do que diabos está falando, Poirot?
– Meu amigo, estive me perguntando o motivo da visita dessa manhã. Será
que nosso amigo realmente tinha esperança em conseguir me subornar? Ou, por
outro lado, em me assustar e me convencer a abandonar o caso? Parece difícil de
acreditar. Então, por que ele veio? Agora eu vejo o plano inteiro… tudo
certinho… tudo perfeito… o pretenso motivo de me subornar ou me assustar… a
luta necessária que ele não fez questão de evitar, na qual ele poderia deixar cair a
carteira de modo natural e cabível… e finalmente… a armadilha! Rue des
Echelles, onze da manhã? Acho que não, mon ami! Não enganam Hercule Poirot
assim tão facilmente.
– Minha nossa – falei, ofegante.
Poirot murmurava consigo, o cenho franzido.
– Tem outra coisa que eu não entendo.
– O quê?
– A hora, Hastings… a hora. Se quisessem me atrair com um engodo, não
seria melhor à noite? Por que tão cedo? Será que algo está prestes a acontecer
hoje de manhã? Algo que eles não querem que Hercule Poirot fique sabendo?
Ele balançou a cabeça.
– Vamos ver. Vou esperar sentado, mon ami. Não vamos mexer uma palha
esta manhã. Vamos esperar os acontecimentos aqui.
Às onze e meia em ponto, veio a intimação. Um petit bleu. Poirot abriu e
então me mostrou. Era de madame Olivier, a cientista mundialmente famosa, a
quem visitáramos no dia anterior para tratar do caso Halliday. Solicitava nossa
presença imediata em Passy.
Obedecemos à solicitação sem um minuto de demora. Madame Olivier nos
recebeu na mesma sala de visitas. Fiquei outra vez impressionado com o poder
maravilhoso daquela mulher, o rosto esguio de freira, os olhos ardentes – essa
brilhante sucessora de Becquerel e dos Curie. Ela foi direto ao ponto.
– Messieurs, ontem os senhores me perguntaram sobre o desaparecimento
do sr. Halliday. Fiquei sabendo que os senhores vieram aqui uma segunda vez e
pediram para falar com minha secretária, Inez Veroneau. Ela saiu de casa com os
senhores e até agora não retornou.
– É só isso, madame?
– Não, monsieur, não é. Ontem à noite, o laboratório foi arrombado. Vários
documentos e memorandos valiosos foram roubados. Os ladrões tentaram levar
algo ainda mais precioso, mas felizmente não conseguiram abrir o cofre grande.
– Madame, os fatos do caso são estes. Sua nova secretária, sra. Veroneau, é
na verdade a condessa Rossakoff, ladra experiente. Foi ela a responsável pelo
sumiço do sr. Halliday. Há quanto tempo ela foi contratada?
– Cinco meses, monsieur. O que o senhor diz me deixa espantada.
– No entanto, é verdade. Esses papéis de que a senhora fala, eram fáceis de
encontrar? Ou a senhora imagina que os ladrões tinham acesso a informação
privilegiada?
– É muito curioso… os ladrões sabiam exatamente onde procurar. O senhor
pensa que Inez…
– Sim, não tenho dúvida de que eles agiram com base nas informações dela.
Mas que coisa preciosa é essa que os ladrões não conseguiram achar? Joias?
Madame Olivier balançou a cabeça com um sorriso suave.
– Algo mais precioso do que isso, monsieur. – Ela olhou ao redor, então se
inclinou à frente, baixando a voz. – Rádio, monsieur.
– Rádio?
– Sim, monsieur. Agora estou chegando ao ápice de meus experimentos.
Tenho uma pequena porção de rádio comigo… e outra quantidade me foi
concedida para o projeto em que estou trabalhando. Embora o volume total seja
pequeno, equivale a uma boa porcentagem do estoque mundial e representa um
valor de milhões de francos.
– E onde está?
– Num estojo de chumbo, dentro do cofre grande. Não é sem motivo que o
cofre tem a aparência de uma coisa velha e gasta, mas, na verdade, é um triunfo
da arte da fabricação de cofres. Por isso os ladrões não conseguiram abri-lo.
– Por quanto tempo a senhora ainda vai manter esse rádio em seu poder?
– Só mais dois dias, monsieur. Então vou concluir meus experimentos.
Os olhos de Poirot brilharam.
– E Inez Veroneau sabe disso? Bom… então nossos amigos vão retornar.
Não comente sobre mim com ninguém, madame. Mas fique certa, vou guardar o
rádio para a senhora. A senhora tem a chave da porta do laboratório que dá para
o jardim?
– Sim, monsieur. Aqui está. Tenho uma cópia. E aqui está a chave da porta
do jardim para a alameda entre esta casa e a casa vizinha.
– Obrigado, madame. Hoje à noite, vá dormir como de costume, mas não se
preocupe, deixe que eu me encarrego de tudo. Apenas não comente nada com
ninguém… nem mesmo com seus dois assistentes… mademoiselle Claude e
monsieur Henri, não é? Principalmente com eles.
Poirot deixou a casa de campo esfregando as mãos com grande
contentamento.
– O que vamos fazer agora? – indaguei.
– Agora, Hastings, vamos embora de Paris… rumo à Inglaterra.
– O quê?
– Vamos fazer as malas, almoçar e pegar um táxi para a Gare du Nord.
– Mas e o rádio?
– Eu disse que nós estamos indo para a Inglaterra… não disse que vamos
chegar lá. Raciocine um pouco, Hastings. É quase certo que estamos sendo
observados e seguidos. Nossos inimigos precisam acreditar que estamos
voltando para a Inglaterra. Não vão acreditar nisso a menos que nos vejam a
bordo do trem em movimento.
– Quer dizer que vamos pular de novo na última hora?
– Não, Hastings. Só uma partida bona fide será capaz de satisfazer nossos
inimigos.
– Mas o trem não para até Calais!
– Vai parar se for pago para isso.
– Ah, deixa disso, Poirot… certamente ninguém pode pagar um trem para
ele parar… eles se recusariam.
– Meu caro amigo, nunca prestou atenção na pequena alça (o signal
d’arrêt), cuja multa por uso impróprio é de 100 francos, se não me engano?
– Ah! Vai puxar aquilo?
– Ou senão um grande amigo, Pierre Combeau, o fará por mim. Então,
enquanto ele estiver discutindo com o guarda, no meio do alvoroço, saímos de
fininho do trem.
Seguimos o plano de Poirot à risca. Pierre Combeau, velho camarada de
Poirot, que evidentemente conhecia muito bem os métodos de meu amiguinho,
encarregou-se de tomar as devidas providências. Mal o trem entrou nos
subúrbios de Paris, ele puxou o cordão do freio de emergência. Enquanto
Combeau fazia um “escândalo” bem à moda francesa, Poirot e eu descemos do
trem sem ninguém se importar. Nosso primeiro procedimento foi realizar uma
considerável mudança em nossa aparência. Poirot trouxera os materiais para isso
com ele num pequeno estojo. O resultado foi dois vagabundos em camisas azuis
e sujas. Jantamos num obscuro albergue e partimos rumo a Paris logo depois.
Eram quase onze horas quando nos encontramos outra vez nas vizinhanças
da casa de campo de madame Olivier. Olhamos acima e abaixo da estrada antes
de entrarmos, sorrateiros, na alameda. O lugar parecia um completo deserto. De
uma coisa podíamos ter certeza: ninguém nos seguira.
– Não acho que já estejam por aqui – sussurrou-me Poirot. – É possível que
não venham até amanhã à noite, mas sabem perfeitamente que o rádio só vai
ficar aqui mais duas noites.
Com muito cuidado, viramos a chave da porta do jardim. Ela se abriu
silenciosamente, e penetramos no jardim.
E então, quando menos esperávamos, o ataque repentino. Num minuto
fomos cercados, amordaçados e amarrados. No mínimo dez homens deviam
estar nos esperando. Inútil resistir. Como dois fardos indefesos fomos içados e
transportados. Para meu forte espanto, fomos levados rumo a casa, e não para
longe dela. Com uma chave eles abriram a porta do laboratório e nos carregaram
para dentro. Um dos homens inclinou-se à frente do cofre enorme e abriu a
porta. Uma sensação desagradável percorreu minha espinha. Será que iam nos
fechar no cofre e nos deixar asfixiando lentamente lá dentro?
Entretanto, para minha surpresa, percebi que no fundo do cofre degraus
conduziam a um porão. Fomos levados escada abaixo por um caminho estreito
até chegarmos a uma grande câmara subterrânea. Ali nos esperava uma senhora
alta e imponente, o rosto coberto por veludo negro. Seus gestos de autoridade
revelavam que ela comandava a situação. Os homens nos largaram no chão, e
ficamos a sós com a misteriosa criatura mascarada. Eu não tinha dúvidas sobre
quem ela devia ser. A francesa desconhecida… o Número Três dos Quatro
Grandes.
Ela ajoelhou-se a nosso lado e removeu as mordaças, mas nos deixou
amarrados. Então se ergueu e, virando o rosto em nossa direção, num gesto
ligeiro e repentino, retirou a máscara.
Madame Olivier!
– Monsieur Poirot – disse em tom baixo de escárnio. – O grande, o
maravilhoso, o incomparável monsieur Poirot! Ontem mandei um aviso. O
senhor achou por bem desconsiderá-lo… pensou que era páreo para NOSSA
organização. Olha só no que deu.
Um calafrio percorreu minha espinha. A frieza maligna daquelas palavras
destoava do fogo ardente daquele olhar. Ela estava insana, insana, com a
insanidade dos gênios!
Poirot não disse nada. Boquiaberto, não tirava os olhos dela.
– Bem – disse ela, com voz suave –, esse é o fim. Não podemos deixar
ninguém atrapalhar os nossos planos. Quer fazer um último pedido?
Nunca antes nem depois senti a morte tão perto. Poirot foi sublime. Não se
intimidou nem tampouco empalideceu. Apenas a encarou com aguçado
interesse.
– Sua psicologia me atrai imensamente, madame – disse com a voz
tranquila. – É uma pena que eu tenha tão pouco tempo para dedicar a esse
estudo. Sim, tenho um pedido a fazer. A um condenado não se nega o direito de
fumar um último cigarro, acredito. A cigarreira está no meu bolso. Com sua
permissão… – Baixou os olhos para as cordas que o prendiam.
– Ah, sim! – riu-se ela. – Quer que eu desamarre suas mãos, não quer?
Muito inteligente, monsieur Hercule Poirot. Não vou desamarrá-lo… mas vou
pegar um cigarro para você.
Ajoelhou-se ao lado de Poirot, sacou a cigarreira, pegou um cigarro e
colocou-o entre os lábios do prisioneiro.
– E agora um fósforo – disse ao levantar-se.
– Não é necessário, madame.
Algo na voz dele me deixou perplexo. Ela também ficou hipnotizada.
– Não se mova, eu lhe peço, madame. A senhora vai se arrepender. Por
acaso já ouviu falar nas propriedades do curare? Os índios da América do Sul o
usam para envenenar a ponta das flechas. Um arranhão é morte certa. Certas
tribos usam uma pequena zarabatana… eu também tenho uma pequena
zarabatana, camuflada na forma exata de um cigarro. A única coisa que preciso
fazer é soprar… Ah! Não tente nada. Não se mova, madame. O mecanismo deste
cigarro é o mais engenhoso. Um mero sopro… e um dardo minúsculo em
formato de espinha de peixe cruza o ar… até encontrar o alvo. Não quer morrer,
madame. Portanto, suplico: solte as cordas de meu amigo Hastings. Não posso
usar as mãos, mas posso mover a cabeça… então… está na minha mira, madame.
Não cometa um deslize, eu suplico.
Devagar, com as mãos trêmulas, a fúria e o rancor crispando as feições,
abaixou-se e obedeceu. Eu estava livre. A voz de Poirot seguiu dando instruções.
– Agora amarre a madame, Hastings. Isto mesmo. Está bem presa? Então
me solte, por favor. Ainda bem que ela mandou embora os capangas. Com um
pouco de sorte, o caminho da saída vai estar desobstruído.
No minuto seguinte, Poirot estava em pé a meu lado. Fez uma reverência à
senhora.
– Ninguém mata Hercule Poirot assim tão facilmente, madame. Boa noite.
A mordaça a impediu de responder, mas o fulgor assassino de seu olhar me
assustou. Desejei do fundo do coração nunca mais cairmos nas mãos dela outra
vez.
Três minutos depois estávamos fora da casa de campo, atravessando o
jardim a passos acelerados. A estrada lá fora estava deserta, e logo saímos do
bairro.
Então, Poirot soltou a língua.
– Mereço tudo que essa mulher me disse. Sou um idiota triplo, um animal
miserável, 36 vezes imbecil. Eu me vangloriava por não ter caído na cilada. E na
verdade nem era para ser uma cilada, a não ser pelo modo exato em que acabei
caindo nela. Não apenas sabiam como apostaram que eu perceberia a
armadilha… Isso explica tudo… por isso todos se renderam com tanta facilidade.
Halliday… tudo. Madame Olivier era o espírito líder; Vera Rossakoff a tenente. A
madame precisava das ideias de Halliday… com sua genialidade preencheria as
lacunas que o confundiam. Sim, Hastings, agora sabemos quem é o Número
Três: talvez a maior cientista do mundo! Pense nisso. O cérebro do Oriente, a
ciência do Ocidente… e outros dois cujas identidades ainda não sabemos. Mas
precisamos descobrir. Amanhã voltamos a Londres e colocamos a mão na massa.
– Não vai denunciar madame Olivier para a polícia?
– Ninguém acreditaria em mim. A mulher é um dos ícones da França. Além
do mais, não podemos provar nada. Temos sorte se ela não nos denunciar.
– Como?
– Pense bem. Somos encontrados à noite na propriedade dela com chaves
em nosso poder que ela juraria não ter nos fornecido. Ela nos surpreende no
cofre. Então a amordaçamos, amarramos e depois fugimos. Não se iluda,
Hastings. O feitiço pode virar contra o feiticeiro… não é esse o ditado?

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