Agatha Christie

220px-Agatha_Christie_3Agatha Mary Clarissa Christie (Agatha Mary Clarissa Miller; nasceu em Torquay, Devon, Inglaterra, Reino Unido, 15 de setembro de 1890 sendo a terceira filha de um rico americano e faleceu em Wallingford, Oxfordshire, Inglatera, Reino Unido em 12 de janeiro de 1976), popularmente conhecida como Agatha Christie, foi uma escritora britânica que atuou como romancista, contista, dramaturga e poetisa. Destacou-se no subgenero romance policial, tendo ganhado popularmente, em vida, a alcunha de “Rainha/Dama do Crime”. Durante sua carreira, publicou mais de oitenta livros, alguns sob o pseudônimo de Mary westmacott.

Christie e a romancista mais bem sucedida da história da literatura mundial em número total de livros vendidos segundo o Guiness Book, suas obras juntas, venderam cerca de quatro bilhões de copias ao longo dos séculos XX e XXI, só ficando atrás das obras vendidas de William Shakespeare e a  bíblia. Já foram traduzidas para mais de 100 idiomas em todo o mundo. Seu livro mais vendido publicado no Brasil como “E não sobrou nenhum”, ou ” O caso dos dez negrinhos”, de 1939, comercializou mais de 100 milhões de cópias em todo o mundo. A obra de romance policial mais vendida da história, além de figurar na lista dos livros mais vendidos de todos os tempos, independentemente de seu gênero.

Em 1971, foi condecorada pela rainha do Reino Unido, Elizabeth II, com o título de Dama do Império Britânico, um honra equivalente feminino ao sir. Escreveu setenta e dois romances, sendo sessenta e seis deles do gênero romance policial e inúmeros contos, reunidos em quatorze coletâneas. É constantemente referida por seus emblemáticos personagens, incluindo o detetive belga Hercule Poirot e a idosa detetive amadora Jane Marple, ou Miss Marple. 

Vida

O pai de Agatha, Frederick, passava a maior parte do tempo viajando; já a mãe, Clara, era uma mulher muito tímida, de quem Agatha herdou boa parte de sua personalidade. O casal tinha mais dois filhos, Madge e Monty, ambos mais velhos que Agatha. Em 1896, mudou-se com a família para a Franca. Embora Madge e Monty recebessem uma educação formal, a mãe decidiu que a filha mais nova deveria começar a estudar antes dos 8 anos. Ate os quatorze anos Agatha praticamente só foi educada em casa, tendo diversos tutores e professores particulares. Seu pai morreu quando ela tinha apenas 11 anos, e apartir de então Agatha começou a viajar para vários lugares do mundo com a mãe. Aos 16 anos, foi para uma escola de aperfeiçoamento em Paris, onde se destacou como cantora e pianista. 

Conheceu o Coronel Archibald Christie, piloto do Corpo Real de Aviadores em 1912, e manteve com ele um romance tempestuoso. Casaram-se em 24 de dezembro de 1914. Enquanto o marido esteve na Primeira Guera Mundial, Agatha trabalhou em um hospital e em uma farmácia, funções que influenciaram se trabalho: muitos dos assassinatos em seus livros foram cometidos com o uso de veneno.

Início na literatura

 Começou a escrever The Mysterious Affair at Styles em 1916, e o livro foi publicado em 1920 pela editora Bodley Head vendendo cerca de 2.000 cópias, após ser rejeitado por 6 editoras. Em seguida vieram The Secret Adversary, The murder on the Links, The man in the Brown Suit, Poirot Investigates e The Secret of Chimneys. Mas o sucesso veio em 1926 com a publicação de The Murder of Roger Ackroyd, que vendeu 5.000 cópias. O livro causou polêmica, pois Agatha contrariou as regras dos romances policiais.  

Desaparecimento

No final de 1926, Archie pediu a Agatha o divórcio e revela que está apaixonado por Nancy Neele.  Em 3 de dezembro de 1926, os Christies brigaram, e Archie deixou sua casa, em Styles, em Sunningdale, Berkshire, para passar o fim de semana com sua amante e alguns amigos em Godalming, Surrey. Naquela mesma noite, por volta das 21h45, Christie desapareceu de sua casa. Na manhã do dia 04 de dezembro seu carro foi encontrado em um barranco no lago de Silent Pool em Newlands Corner, com os faróis acesos. Dentro do Morris Cowley verde foram deixados um casaco de pele, a sua mala e uma carteira de motorista vencida.  Seu desaparecimento causou protestos do público. O secretário do Interior , William Joynson-Hicks , pressionou a polícia e um jornal ofereceu uma recompensa de 100 libras. Mais de mil policiais, 15 mil voluntários e vários aviões vasculharam a paisagem rural. O desaparecimento de Christie foi destaque na primeira página do The New York Times. Apesar da extensa perseguição, ela não foi encontrada por 10 dias.

Já se passavam onze dias desde que seu carro fora encontrado no lago Silent Pool, e estava sendo procurada por aviões (foi a primeira que se usou aviões para buscar alguém desaparecido na Inglaterra), quando a policia soube que ela estava no Hydropathic Hotel (hoje Old Swan Hotel), em Harrogate. Agatha chegou lá de taxi no dia 04 de dezembro levando consigo apenas uma mala.

A autora estava hospedada sob o nome de Teresa Neele (o mesmo sobrenome da amante do marido), dizendo ser da cidade do Cabo, e explicando que era uma mãe de luto pela morte do filho. No hotel, Agatha foi vista dançando, jogando bridge, fazendo palavras cruzadas e lendo jornais. Curiosamente, a autora deixou um anúncio no The Times dizendo que Tereza Neele procurava parentes e amigos da África do Sul; interessante ressaltar que a irmã de Agatha, Madge, morreu em 1923, após voltar do país africano. A autora foi reconhecida no hotel pelo músico Bob Sanders Tappin, que reivindicou a recompensa de 100 libras. Sanders disse que se dirigiu à autora como “Mrs. Christie” e que essa respondeu-lhe, mas disse que estava sofrendo de amnésia.

Controvérsias

Várias teorias foram criadas para explicar o falso desaparecimento da autora, algumas pessoas defendem que o escândalo foi um golpe publicitário para aumentar a venda de um dos livros (The Murder of Roger Ackoyd lançado semanas antes do desaparecimento, continuava na lista de Best-sellers que, em “O Retrato”, publicado sob o nome de Mary Westmacott, Agatha conta muito da sua história através da personagem Celia, que pensa em suicídio após ser abandonada pelo marido.

O filme de 1979 de Michael Apted , Agatha apresenta um aviso nos créditos de abertura, afirmando que o que se segue é uma solução imaginária para um autêntico mistério. O filme estrelou Vanessa Redgrave e Timothy Dalton como Agatha e Archie, e retrata Christie planejando o suicídio de tal forma a enquadrar a amante de seu marido por seu “assassinato”. Um repórter americano, interpretado por Dustin Hoffman, a segue de perto e interrompe o plano. Os herdeiros de Christie, sem sucesso, processaram para impedir a distribuição do filme. O autor Jared Cade entrevistou inúmeras testemunhas e parentes para sua simpática biografia Agatha Christie e os Onze Dias Perdidos, revisados ​​em 2011. Ele forneceu evidências substanciais para sugerir que ela planejou o evento para envergonhar seu marido.

Os Christies se divorciaram em 1928 e Archie se casou com Nancy Neele. Agatha manteve a custódia de sua filha Rosalind e o nome Christie por sua escrita. Durante o casamento, ela publicou seis romances, uma coleção de contos e uma série de contos em revistas.

O segundo casamento e o retorno à literatura

Em 1927 Agatha voltou a escrever, com a publicação de The Big Four, protagonizado por Hercules Poirot. Mesmo após o escândalo de seu desaparecimento, Agatha só se separou de Archibals em 1928, dois anos após o incidente. No outono do menmo ano, o arqueólogo britânico Leonard Woolley convidou Agatha para o Oriente Médio, onde estava no comando de escavações em Ur. No ano seguinte Agatha voltou a Ur, onde conheceu o jovem assistente de Woolley, Max Mallowan (14 anos mais jovem que ela), com quem se casou em 1930. A autora manteve seu nome como Agatha Christie porque assim era conhecida entre seus leitores, mas em sua vida particular era chamada de Mrs. Mallowan. Com o marido Agatha viajou por todo o mundo, fazendo escavações e tomando conhecimento sobre arqueologia, e escreveu um livro sobre a experiência, Come, Tell me How You Live. O casamento com Mallowan duraria até a morte da escritora. Sua única filha, Rosalind casou-se no início da Segunda Guerra Mundial, e em 1943 teve um filho, Mathew Prichard, o único neto de Agatha Christie.

Em 1934, Agatha Christie alcança o auge de sua carreira, com um de seus livros mais famosos. Murder on the Orient Express, adaptado para o cinema, teatro e TV em incontáveis ocasiões, sendo a mais famosa delas em 1974 do romance, que rendeu um Óscar a Ingrid Bergman, e três prêmios BAFTA- British Academy of Filme and Television Arts. Só no ano de lançamento do filme, o romance original vendeu 3 milhões de cópias.

O legado de Agatha

Ao contrário dos irmãos, Agatha nunca teve chance de fequentar a escola publica e foi educada pela mãe, num ambientequase recluso onde Agatha interessou-se pela música clássica e sonhava em ser cantora lírica. Agatha chegou até mesmo a estudar música em Paris. Em sua infância, também através da mãe, teve o primeiro contato com a literatura.

Em seus 56 anos de carreiraAgatha Christie escreveu mais de 80 livros, fora as várias peças teatrias e adaptações cinematográficas e adaptações televisivas de suas obras, protagonizadas por Hercule Poirot, o detetive belga popularizado pelo uso de suas “células”, e Miss Marple, a solteirona, que observando a natureza humana pode solucionar os mais obscuros mistérios. 

Guinness

Agatha foi uma das autoras mais férteis do mundo. Ela está no Guinness Book o livro dos recordes, como a autora mais vendida no mundo: seus livros já venderam mais de 4 milhões de cópias em 103 idiomas e os royalties gerados pelas obras são de US$ 4 milhões por ano. A autora também ocupa um lugar no Guinness pela peça teatral de maior duração do mundo: The Mousetrap estreou em 25 de novembro de 1952 no Ambassadors Theatre em Londres, em 25 de março de 1974 foi para St. Martin´s Theatre, e continua lá até hoje.

miss Marple
Miss Maple

Outro recorde é o livro mais espesso do mundo, medindo mais de 30 cm, com 4032 páginas nas quais estão incluídos todos os 12 romances e 20 contos protagonizados por Miss Marple. The Complete Miss Marple é um dos livros mais raros da escritora. Foram produzidos apenas 500 volumes, e o livro é vendido por 1000 libras

 

Trabalho

Romances

1920 The Mysterious Affair at Styles (apresentando Hercule Poirot, Inspetor-Chefe Japp e Capitão Hastings)
1922 O Adversário Secreto (apresentando Tommy e Tuppence)
1923 Assassinato nos Links
1924 O homem de terno marrom
1925 O Segredo das Chaminés
1926 O assassinato de Roger Ackroyd
1927 The Big Four
1928 O Mistério do Trem Azul
1929 O mistério dos sete mostradores
1930 The Murder at the Vicarage (apresentando Miss Jane Marple)
1931 O Mistério de Sittaford (também conhecido como Assassinato em Hazelmore)
Perigo de 1932 na casa final
1933 Lord Edgware morre (também conhecido como treze no jantar)
1934 Assassinato no Expresso do Oriente
1935 Three Act Tragedy (também conhecido como Assassinato em Três Atos)
1935 Por que eles não pediram a Evans? (também conhecido como The Boomerang Clue)
1935 Morte nas Nuvens (também conhecida como Morte no Ar)
1936 O A.B.C. Assassinatos (também conhecidos como os assassinatos do alfabeto)
1936 Assassinato na Mesopotâmia
1936 cartas na mesa
1937 Morte no Nilo
1937 Dumb Witness (também conhecido como Poirot perde um cliente)
1938 Nomeação com Morte
1939 e então não havia nenhum (também conhecido como dez pequenos índios)
1939 O assassinato é fácil (também conhecido como fácil de matar)
1939 Hercule Poirot’s Christmas (também conhecido como Assassinato de Natal e Um Feriado por Assassinato)
1940 Sad Cypress
1941 Mal sob o sol
1941 N ou M?
1941 Um, dois, fivela meu sapato (também conhecido como uma overdose de morte e os assassinatos patrióticos)
1942 O corpo na biblioteca
1942 Cinco Porquinhos (também conhecido como Assassinato em Retrospecto)
1942 O dedo em movimento
1944 para o zero
1944 Cianureto Espumante (também conhecido como Morte Lembrada)
1945 a morte vem como o fim
1946 The Hollow (também conhecido como Murder After Hours)
1948, tomado no dilúvio (também conhecido como há uma maré)
Casa Cromada de 1949
1950 Um assassinato é anunciado
1951 Eles vieram para Bagdá
1952 Mrs McGinty’s Dead (também conhecido como Blood Will Tell)
1952 eles fazem isso com espelhos
1953 um bolso cheio de centeio
1953 Depois do Funeral (também conhecido como Funerals Fatal and Murder at the Gallop)
1955 Hickory Dickory Dock (também conhecida como Hickory Dickory Death)
1955 Destination Unknown (também conhecido como So Many Steps to Death)
1956 A loucura do homem morto
1957 4.50 De Paddington (também conhecido como What Mrs. McGillycuddy Saw)
1957 Ordeal pela inocência
1959 gato entre os pombos
1961 O Cavalo Pálido
1962 O Espelho Crack’d de um lado para o outro (também conhecido como The Mirror Crack’d)
1963 os relógios
1964 Um mistério caribenho
1965 No Hotel Bertram’s
Terceira menina de 1966
1967 noite sem fim
1968 pela picada dos meus polegares
Festa do Dia das Bruxas de 1969
1970 passageiros para Frankfurt
1971 Nemesis
1972 elefantes podem recordar
1973 Akhnaton – uma peça em três atos
1973 Postern of Fate (final Tommy e Tuppence, último romance que Christie escreveu)
1975 Curtain (o último caso de Poirot, escrito quatro décadas antes)
1976 Sleeping Murder (último caso de Miss Marple, escrito quatro décadas antes

Coleções de histórias curtas

1924 Poirot Investiga (onze histórias curtas)
1929 Partners in Crime (quinze contos)
1930 O misterioso Sr. Quin (doze contos; apresentando o Sr. Harley Quin)
1933 O Cão da Morte (doze pequenos mistérios)
1933 Os Treze Problemas (treze pequenos mistérios; com Miss Marple, também conhecido como The Tuesday Club Murders)
1934 Parker Pyne Investigates (doze pequenos mistérios; apresentando Parker Pyne e Ariadne Oliver, também conhecido como Mr. Parker Pyne, detetive)
1934 O mistério de Listerdale (doze pequenos mistérios)
1937 Murder in the Mews (quatro contos; com Hercule Poirot)
1939 O Mistério da Regata e Outras Histórias (nove contos)
1947 Os trabalhos de Hércules (doze mistérios curtos; caracterizando Hercule Poirot)
1948 O testemunho da acusação e outras histórias (onze histórias curtas)
1950 Três Ratos Cegos e Outras Histórias (nove contos)
1951 The Under Dog e outras histórias (nove contos)
1960 A Aventura do Pudim de Natal (seis contos)
1961 Double Sin e outras histórias (oito contos)
1971 A bola de ouro e outras histórias (quinze contos)
1974 Os Casos Iniciais de Poirot (dezoito mistérios curtos)
1979 Casos finais de Miss Marple e duas outras histórias (oito histórias curtas)
1992 Problema na Baía de Pollensa (oito contos)
1997 The Harlequin Tea Set (nove histórias curtas)
Trabalhos co-escritos

1930 Behind The Screen escrito em conjunto com Hugh Walpole, Dorothy L. Sayers, Anthony Berkeley, E. C. Bentley e Ronald Knox do Detection Club. Publicado em 1983 na Scoop and Behind The Screen.
1931 The Scoop escrito em conjunto com Dorothy L. Sayers, C. C. Bentley, Anthony Berkeley, Freeman Wills Crofts e Clemence Dane do Clube de Detecção. Publicado em 1983 na Scoop and Behind The Screen.
1931 O Almirante Flutuante escreveu junto com G. K. Chesterton, Dorothy L. Sayers e alguns outros membros do Clube de Detecção.
Reproduções adaptadas em romances de Charles Osborne

1998 Café Preto
2001 O convidado inesperado
2003 A Teia da Aranha

Obras escritas como Mary Westmacott

1930 Pão Gigante
Retrato inacabado de 1934
1944 Ausente na primavera
1948 A rosa e o teixo
1952 A filha é filha
1956 O ônus
Tocam

1928 Álibi
Café Preto 1930
1936 Amor de um estranho
1937 ou 1939 Uma Filha é uma Filha (Nunca Realizada)
Perigo de 1940 na casa final
1943 E então não havia nenhum (aka dez pequenos índios)
1945 Nomeação com Morte
1946 Assassinato no horizonte do Nilo / Hiddon
1949 Assassinato no Vicariato (dramatizado de seu romance por Moie Charles e Barbara Toy)
1951 The Hollow
1952 A Ratoeira
1953 Testemunha da acusação
1954 A Teia da Aranha
1956 para o zero
1958 Veredicto
1958 O convidado inesperado
1960 Voltar para Assassinato
Regra de três de 1962
1972 Fiddler’s Three (Originalmente escrito como Fiddler’s Five. Nunca publicado. Final play ela escreveu.)
1973 Aknaton (escrito em 1937)
1977 o assassinato é anunciado
1981 Cartões na Mesa
Problema 1992 na baía de Pollensa
1993 o assassinato é fácil
2005 e então não havia nenhum
Reproduções de rádio

1937 a íris amarela
1947 Três Ratos Cegos (A Ratoeira)
Manteiga 1948 em um prato Lordly
1960 Chamada Pessoal
Jogos de televisão

1937 Ninho de Vespa
Adaptações de filmes
Agatha Christie não é estranha ao cinema. Nos últimos 78 anos, Poirot, Miss Marple, Tommy e Tuppence, Quin, Parker Pyne e muitos outros foram retratados em diversas ocasiões:

1928 Die Abenteuer G.m.b.H. (O Adversário Secreto)
1928 A passagem do Sr. Quinn
1931 Álibi
1931 Café Preto
1934 Lord Edgware morre
1937 amor de um estranho
1945 e depois não havia nenhum
1947 amor de um estranho
1957 Testemunha da acusação
1960 a teia da aranha
1962 Murder, She Said (baseado em 4.50 De Paddington)
1963 Assassinato no Galope (Baseado no Após o Funeral)
1964 Murder Most Foul (Baseado na Sra. McGinty’s Dead)
1964 Assassinato Ahoy! (Um filme original, não baseado em nenhum dos livros)
1966 e depois não havia nenhum (dez pequenos índios)
1966 os assassinatos do alfabeto (baseado nos assassinatos de ABC)
1972 noite sem fim
1974 Assassinato no Expresso do Oriente
1975 E Então Não Havia Nenhum (Dez Pequenos Índios)
1978 Morte no Nilo
1980 O Espelho Crack’d
1982 O mal sob o sol
1984 provação pela inocência
1988 Nomeação com Morte
1989 E Então Não Havia Nenhum (Dez Pequenos Índios)

Televisão

1938 amor de um estranho
1947 amor de um estranho
1949 Dez Pequenos Índios
1959 Dez Pequenos Índios
1970 Assassinato no Vicariato
1980 Por que eles não perguntaram a Evans?
1982 A Teia da Aranha
1982 o mistério de sete mostradores
1982 A Hora de Agatha Christie
1982 o assassinato é fácil
1982 A Testemunha da Promotoria
1983 parceiros no crime
1983 Um mistério caribenho
1983 Cianeto Espumante
1984 O Corpo na Biblioteca
1985 assassinato com espelhos
1985 O Dedo em Movimento
1985 Um assassinato é anunciado
1985 um bolso cheio de centeio
1985 treze no jantar
1986 loucura do homem morto
1986 assassinato em três atos
1986 Assassinato no Vicariato
1987 Assassinato Adormecido
1987 No Hotel Bertram’s
1987 Nêmesis (Christie)
1987 4,50 De Paddington
1989 o homem no terno marrom
1989 Poirot de Agatha Christie
1989 Um mistério caribenho
Perigo 1990 na casa da extremidade
1990 O Caso Misterioso em Estilos
1991 eles fazem isso com espelhos
1992 O Espelho Crack’d de um lado para o outro
1994 Natal de Hercule Poirot
1995 Assassinato nos Links
1995 Hickory Dickory Dock
1996 testemunha muda
1997 O Cavalo Pálido
2000 O assassinato de Rodger Ackroyd
2000 Lord Edgware morre
2001 mal sob o sol
2001 Assassinato no Expresso do Oriente
2001 Assassinato na Mesopotâmia
2003 Cianeto Espumante
2004 Cinco Porquinhos
2004 Morte no Nilo
2004 Sad Cypress
2004 The Hollow
2004 Marple (peça de TV)
2004 O Corpo na Biblioteca
2004 Assassinato no Vicariato
2004 Nomeação com Morte
2005 Um assassinato é anunciado
2005 O Mistério do Trem Azul
2005 cartões na mesa
2005 Assassinato Adormecido
2005 tomado na inundação
2006 depois do funeral
2006 o dedo movente
2006 pela picada dos meus polegares
2006 O Mistério Sittaford
2007 Hercule Poirot’s Christmas (Uma adaptação cinematográfica francesa)

Videogames

1988 The Scoop, publicado pela Spinnaker Software e Telarium
2005 e então não havia nenhum, a empresa de aventura, jogos de AWE
Assassinato de 2006 no Expresso do Oriente, Dream Catcher Interactive

Material não publicado

Neve no Deserto (romance)

A loucura de Greenshore (novela, caracterizando Hercule Poirot)

Chamada Pessoal (peça de rádio, com o Inspetor Narracott – uma gravação está no British National Sound Archive)

Manteiga em um prato Lordly (peça de rádio)

O portão verde (sobrenatural)

A Noiva de Guerra (sobrenatural)

A mulher e o queneu (horror)

Mais forte que a morte (sobrenatural)

Animação

Em 2004, a emissora japonesa Nippon Housou Kyoukai (NHK) transformou Poirot e Marple em personagens de animação na série de anime Agatha Christie’s Great Detectives Poirot e Marple, apresentando Mabel West (filha do escritor de mistério de Miss Marple Raymond West, um Christie canônico pers

onagem) e seu pato Oliver como novos personagens.

Agatha Christie em ficção

Dame Agatha aparece como uma das personagens principais, com Dorothy L. Sayers, no misterioso assassinato de assassinatos de Dorothy e Agatha por Gaylord Larsen. ISBN 052524865X

O caso de chocolates envenenados por Anthony Berkeley contém caracteres baseados em Christie, Sayers, John Dickson Carr e Chesterton. ISBN 0862208203

O filme Agatha (1979) trata de uma solução fictícia para o verdadeiro mistério do desaparecimento de Agatha Christie em 1926.

Agatha Christie. (2019, February 8). New World Encyclopedia, . Retrieved 15:21, April 17, 2019 from http://www.newworldencyclopedia.org/p/index.php?title=Agatha_Christie&oldid=1017958.

Para Sempre

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Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
– mistério profundo –
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

Carlos Drummond de Andrade

Feliz dia das mães!!!

O Poço e o Pêndulo

Estava exausto, mortalmente exausto com aquela longa agonia e, quando por fim me desamarraram e pude sentar-me, senti que perdia os sentidos. A sentença – a terrível sentença de morte – foi a última frase que chegou, claramente, aos meus ouvidos. Depois, o som das vozes dos inquisidores pareceu apagar-se naquele zumbido indefinido de sonho. O ruído despertava em minha alma a ideia de rotação, talvez devido à sua associação, em minha mente, com o ruído característico de uma roda de moinho. Mas isso durou pouco, pois, logo depois, nada mais ouvi. Não obstante, durante alguns momentos, pude ver, mas com que terrível exagero! Via os lábios dos juízes vestidos de preto. Pareciam-me brancos, mais brancos do que a folha de papel em que traço estas palavras, e grotescamente finos – finos pela intensidade de sua expressão de firmeza, pela sua inflexível resolução, pelo severo desprezo ao sofrimento humano. Via que os decretos daquilo que para mim representava o destino saíam ainda daqueles lábios. Vi-os contorcerem-se numa frase mortal; vi-os pronunciarem as sílabas de meu nome – e estremeci, pois nenhum som lhes acompanhava os movimentos. Vi, também, durante alguns momentos de delírio e terror, a suave e quase imperceptível. ondulação das negras tapeçarias que cobriam as paredes da sala, e o meu olhar caiu então sobre as sete grandes velas que estavam em cima da mesa. A princípio, tiveram para mim o aspecto de uma claridade, e pareceram-me anjos brancos e esguios que deveriam salvar-me. Mas, de repente, uma náusea mortal invadiu-me a alma, e senti que cada fibra de meu corpo estremecia como se houvesse tocado os fios de uma bateria galvânica. As formas angélicas se converteram em inexpressivos espectros com cabeças de chama, e vi que não poderia esperar delas auxílio algum. Então, como magnífica nota musical, insinuou-se em minha imaginação a ideia do doce repouso que me aguardava no túmulo. Chegou suave, furtivamente – e penso que precisei de muito tempo para apreciá-la devidamente. Mas, no instante preciso em que meu espírito começava a sentir e alimentar essa ideia, as figuras dos juízes se dissiparam, como por arte de mágica, ante os meus olhos. As grandes velas reduziram-se a nada; suas chamas se apagaram por completo e sobreveio o negror das trevas; todas as sensações pareceram desaparecer como numa queda louca da alma até o Hades. E o universo transformou-se em noite, silêncio, imobilidade.

Eu desmaiara; mas, não obstante, não posso dizer que houvesse perdido de todo a consciência. Não procurarei definir, nem descrever sequer, o que dela me restava. Nem tudo, porém, estava perdido. Em meio do mais profundo sono… não! Em meio do delírio… não! Em meio do desfalecimento. . . não! Em meio da morte… não! Nem mesmo na morte tudo está perdido. Do contrário, não haveria imortalidade para o homem. Quando despertamos do mais profundo sono, desfazemos as teias de aranha de algum sonho. E, não obstante, um segundo depois não nos lembramos de haver sonhado, por mais delicada que tenha sido a teia. Na volta a vida, depois do desmaio, há duas fases: o sentimento da existência moral ou espiritual e o da existência física. Parece provável que, se ao chegar à segunda fase tivéssemos de evocar as impressões da primeira, tornaríamos a encontrar todas as lembranças eloquentes do abismo do outro mundo. E qual é esse abismo? Como, ao menos, poderemos distinguir suas sombras das do túmulo?

Mas, se as impressões do que chamamos primeira fase não nos acodem de novo ao chamado da vontade, acaso não nos aparecem depois de longo intervalo, sem ser solicitadas, enquanto, maravilhados, perguntamos a nós mesmos de onde provêm? Quem nunca perdeu os sentidos não descobrirá jamais estranhos palácios e rostos singularmente familiares entre as chamas ardentes; não contemplará, flutuante no ar, as melancólicas visões que muitos talvez jamais contemplem; não meditará nunca sobre o perfume de alguma flor desconhecida, nem mergulhará no mistério de alguma melodia que jamais lhe chamou antes a atenção.

Em meio de meus frequentes e profundos esforços para recordar, em meio de minha luta tenaz para apreender algum vestígio desse estado de vácuo aparente em que minha alma mergulhara, houve breves, brevíssimos instantes em que julguei triunfar, momentos fugidios em que cheguei a reunir lembranças que, em ocasiões posteriores, meu raciocínio, lúcido, me afirmou não poderem referir-se senão a esse estado em que a consciência parece aniquilada. Essas sombras de lembranças apresentavam, indistintamente, grandes figuras que me carregavam, transportando-me, silenciosamente, para baixo… para baixo… ainda mais para baixo… até que uma vertigem horrível me oprimia, ante a ideia de que não tinha mais fim tal descida. Também me lembro de que despertavam um vago horror no fundo de meu coração, devido precisamente à tranquilidade sobrenatural desse mesmo coração. Depois, o sentimento de uma súbita imobilidade em tudo o que me cercava, como se aqueles que me carregavam (espantosa comitiva!) ultrapassassem, em sua descida, os limites do ilimitado, e fizessem uma pausa, vencidos pelo cansaço de seu esforço. Depois disso, lembro-me de uma sensação de monotonia e de umidade. Depois, tudo é loucura – a loucura da memória que se agita entre coisas proibidas.

Súbito, voltam à minha alma o movimento e o som – o movimento tumultuoso do coração e, em meus ouvidos, o som de suas batidas. Em seguida, uma pausa, em que tudo é vazio. Depois, de novo, o som, o movimento e o tato, como uma sensação vibrante que penetra em meu ser. Logo após, a simples consciência da minha existência, sem pensamento – estado que durou muito tempo. Depois, de maneira extremamente súbita, o pensamento, e um trêmulo terror – o esforço enorme para compreender o meu verdadeiro estado. Logo após, vivo desejo de mergulhar na insensibilidade. Depois, um brusco renascer da alma e um esforço bem sucedido para mover-me. E, então, a lembrança completa do que acontecera, dos juízes, das tapeçarias negras, da sentença, da fraqueza, do desmaio. Esquecimento completo de tudo o que acontecera – e que somente mais tarde, graças aos mais vivos esforços, consegui recordar vagamente.

Até então, não abrira ainda os olhos. Sentia que me achava deitado de costas, sem que estivesse atado. Estendi a mão e ela caiu pesadamente sobre alguma coisa úmida e dura. Deixei que ela lá ficasse durante muitos minutos, enquanto me esforçava por imaginar onde é que eu estava e o que é que poderia ter acontecido comigo. Desejava, mas não me atrevia a fazer uso dos olhos. Receava o primeiro olhar sobre as coisas que me cercavam. Não que me aterrorizasse contemplar coisas terríveis, mas tinha medo de que não houvesse nada para ver. Por fim, experimentando horrível desespero em meu coração, abri rapidamente os olhos. Meus piores pensamentos foram, então, confirmados. Envolviam-me as trevas da noite eterna. Esforcei-me por respirar. A intensidade da escuridão parecia oprimir-me, asfixiar-me. O ar era intoleravelmente pesado. Continuei ainda imóvel, e esforcei-me por fazer uso da razão. Lembrei-me dos procedimentos inquisitoriais e, partindo daí, procurei deduzir qual a minha situação real.

A sentença fora proferida, e parecia-me que, desde então, transcorrera longo espaço de tempo. Não obstante, não imaginei um momento sequer que estivesse realmente morto. Tal suposição, pese o que lemos nos livros de ficção, é absolutamente incompatível com a existência real. Mas onde me encontrava e qual era o meu estado? Sabia que os condenados à morte pereciam, com frequência, nos autos-de-fé – e um desses autos havia-se realizado na noite do dia em que eu fora julgado. Teria eu permanecido em meu calabouço, à espera do sacrifício seguinte, que não se realizaria senão dentro de muitos meses? Vi, imediatamente, que isso não poderia ser. As vítimas eram exigidas sem cessar. Além disso, meu calabouço, bem como as celas de todos os condenados, em Toledo, tinha piso de pedra e a luz não era inteiramente excluída.

De repente, uma ideia terrível acelerou violentamente o sangue em meu coração e, durante breve espaço, mergulhei de novo na insensibilidade. Ao recobrar os sentidos, pus-me logo de pé, a tremer convulsivamente. Alucinado, estendi os braços para o alto e em torno de mim, em todas as direções. Não senti nada. Não obstante, receava dar um passo, com medo de ver os meus movimentos impedidos pelos muros de um túmulo. O suor brotava-me de todos os poros e grossas gotas frias me salpicavam a testa. A angústia da incerteza tornou-se, por fim, insuportável e avancei com cautela, os braços estendidos, os olhos a saltar-me das órbitas, na esperança de descobrir algum tênue raio de luz. Dei muitos passos, mas, não obstante, tudo era treva e vácuo. Sentia a respiração mais livre. Parecia-me evidente que o meu destino não era, afinal de contas, o mais espantoso de todos.

Continuei a avançar cautelosamente e, enquanto isso, me vieram à memória mil vagos rumores dos horrores de Toledo. Sobre calabouços, contavam-se coisas estranhas – fábulas, como eu sempre as considerara; coisas, contudo, estranhas, e demasiado horríveis para que a gente as narrasse a não ser num sussurro. Acaso fora eu ali deixado para morrer de fome naquele subterrâneo mundo de trevas, ou

quem sabe um destino ainda mais terrível me aguardava? Conhecia demasiado bem o caráter de meus juízes para duvidar de que o resultado de tudo aquilo seria a morte, e uma morte mais amarga do que a habitual. Como seria ela e a hora de sua execução eram os únicos pensamentos que me ocupavam o espírito, causando-me angústia.

Minhas mãos estendidas encontraram, afinal, um obstáculo sólido. Era uma parede que parecia de pedra, muito lisa, úmida e fria. Segui junto a ela, caminhando com a cautelosa desconfiança que certas narrações antigas me haviam inspirado. Porém, essa operação não me proporcionava meio algum de averiguar as dimensões de meu calabouço; podia dar a volta e tornar ao ponto de partida sem perceber exatamente o lugar em que me encontrava, pois a parede me parecia perfeitamente uniforme. Por isso, procurei um canivete que tinha num dos bolsos quando fui levado ao tribunal, mas havia desaparecido. Minhas roupas tinham sido substituídas por uma vestimenta de sarja grosseira. A fim de identificar o ponto de partida, pensara em enfiar a lâmina em alguma minúscula fenda da parede. A dificuldade, apesar de tudo, não era insuperável, embora, em meio à desordem de meus pensamentos, me parecesse, a princípio, uma coisa insuperável. Rasguei uma tira da barra de minha roupa e coloquei-a ao comprido no chão. formando um ângulo reto com a parede. Percorrendo as palpadelas o caminho em torno de meu calabouço, ao terminar o circuito teria de encontrar o pedaço de fazenda. Foi, pelo menos, o que pensei; mas não levara em conta as dimensões do calabouço, nem a minha fraqueza. O chão era úmido e escorregadio. Cambaleante, dei alguns passos, quando, de repente, tropecei e caí. Meu grande cansaço fez com que permanecesse caído e, naquela posição, o sono não tardou em apoderar-se de mim.

Ao acordar e estender o braço, encontrei ao meu lado um pedaço de pão e um púcaro com água. Estava demasiado exausto para pensar em tais circunstâncias, e bebi e comi avidamente. Pouco depois, reiniciei minha viagem em torno do calabouço e, com muito esforço, consegui chegar ao pedaço de sarja. Até o momento em que caí, já havia contado cinquenta e dois passos e, ao recomeçar a andar até chegar ao pedaço de pano, mais quarenta e oito. Portanto, havia ao todo cem passos e, supondo que dois deles fossem uma jarda, calculei em cerca de cinquenta jardas a circunferência de meu calabouço. No entanto, deparara com numerosos ângulos na parede, e isso me impedia de conjeturar qual a forma da caverna, pois não havia dúvida alguma de que se tratava de uma caverna.

Tais pesquisas não tinham objetivo algum e, certamente, eu não alimentava nenhuma esperança; mas uma vaga curiosidade me Ievava a continuá-las. Deixando a parede, resolvi atravessar a área de minha prisão. A princípio, procedi com extrema cautela, pois o chão, embora aparentemente revestido de material sólido, era traiçoeiro, devido ao limo. Por fim, ganhei coragem e não hesitei em pisar com firmeza, procurando seguir cm linha tão reta quanto possível. Avancei, dessa maneira, uns dez ou doze passos, quando o que restava da barra de minhas vestes se emaranhou em minhas pernas. Pisei num pedaço da fazenda e caí violentamente de bruços.

Na confusão causada pela minha queda, não reparei imediatamente numa circunstância um tanto surpreendente, a qual, no entanto, decorridos alguns instantes, enquanto me encontrava ainda estirado, me chamou a atenção. Era que o meu queixo estava apoiado sobre o chão da prisão, mas os meus lábios e a parte superior de minha cabeça, embora me parecessem colocados numa posição menos elevada do que o queixo, não tocavam em nada. Por outro lado, minha testa parecia banhada por um vapor pegajoso, e um cheiro característico de cogumelos em decomposição me chegou às narinas. Estendi o braço para a frente e tive um estremecimento, ao verificar que caíra bem junto às bordas de um poço circular cuja circunferência, naturalmente, não me era possível verificar no momento. Apalpando os tijolos, pouco abaixo da boca do poço, consegui deslocar um pequeno fragmento e deixei-o cair no abismo. Durante alguns segundos, fiquei atento aos seus ruídos, enquanto, na queda, batia de encontro às paredes do poço; por fim, ouvi um mergulho surdo na água, seguido de ecos fortes. No mesmo momento, ouvi um som que se assemelhava a um abrir e fechar de porta. acima de minha cabeça, enquanto um débil raio de luz irrompeu subitamente através da escuridão e se extinguiu de pronto.

Percebi claramente a armadilha que me estava preparada, e congratulei-me comigo mesmo pelo oportuno acidente que me fizera escapar de tal destino. Outro passo antes de minha queda, e o mundo jamais me veria de novo. E a morte de que escapara por pouco era daquelas que eu sempre considerara como fabulosas e frívolas nas narrações que diziam respeito à Inquisição. Para as vítimas de sua tirania, havia a escolha entre a morte com as suas angústias físicas imediatas e a morte com os seus espantosos horrores morais. Eu estava destinado a esta última. Devido aos longos sofrimentos, meus nervos estavam à flor da pele, a ponto de tremer ao som de minha própria voz, de modo que era, sob todos os aspectos, uma vítima adequada para a espécie de tortura que me aguardava.

Tremendo dos pés à cabeça, voltei, às apalpadelas, até a parede, resolvido antes a ali perecer do que a arrostar os terrores dos poços, que a minha imaginação agora pintava. em vários lugares do calabouço. Em outras condições de espírito, poderia ter tido a coragem de acabar de vez com a minha miséria, mergulhando num daqueles poços; mas eu era, então, o maior dos covardes. Tampouco podia esquecer o que lera a respeito daqueles poços: que a súbita extinção da vida não fazia parte dos planos de meus algozes.

A agitação em que se debatia o meu espírito fez-me permanecer acordado durante longas horas; contudo, acabei por adormecer de novo. Ao acordar, encontrei ao meu lado, como antes, um pão e um púcaro com água. Consumia-me uma sede abrasadora, e esvaziei o recipiente de um gole só. A água devia conter alguma droga, pois, mal acabara de beber, tornei-me irresistivelmente sonolento. Invadiu-me profundo sono – um sono como o da morte. Quanto tempo aquilo durou, certamente, não posso dizer; mas, quando tornei a abrir os olhos, os objetos em torno eram visíveis. Um forte clarão cor de enxofre, cuja origem não pude a princípio determinar, permitia-me ver a extensão e o aspecto da prisão.

Quanto ao seu tamanho, enganara-me completamente. A extensão das paredes, em toda a sua. volta, não passava. de vinte e cinco jardas. Durante alguns minutos, tal fato me causou um mundo de preocupações inúteis. Inúteis, de fato, pois o que poderia ser menos importante, nas circunstâncias em que me encontrava, do que as simples dimensões de minha cela? Mas minha alma se interessava vivamente por coisas insignificantes, e eu me empenhava em explicar a mim mesmo o erro cometido em meus cálculos. Por fim, a verdade fez-se-me subitamente clara. Em minha primeira tentativa de exploração, eu contara cinquenta e dois passos até o momento em que caí; devia estar, então, a um ou dois passos do pedaço de sarja; na verdade, havia quase completado toda a volta do calabouço. Nessa altura, adormeci e, ao despertar, devo ter voltado sobre meus próprios passos – supondo, assim, que o circuito do calabouço era quase o dobro do que realmente era. A confusão de espírito em que me encontrava impediu-me de notar que começara a volta seguindo a parede pela esquerda, e que a terminara seguindo-a para a direita.

Enganara-me, também, quanto ao formato da cela. Ao seguir o meu caminho, deparara com muitos ângulos, o que me deu ideia de grande irregularidade, tão poderoso é o efeito da escuridão total sobre alguém que desperta do sono ou de um estado de torpor! Os ângulos não passavam de umas poucas reentrâncias, ou nichos, situadas em intervalos iguais. A forma geral da prisão era retangular. O que me parecera alvenaria, parecia-me, agora, ferro, ou algum outro metal, disposto em enormes pranchas, cujas suturas ou juntas produziam as depressões. Toda a superfície daquela construção metálica era revestida grosseiramente de vários emblemas horrorosos e repulsivos nascidos das superstições sepulcrais dos monges. Figuras de demônios de aspectos ameaçadores, com formas de esqueleto, bem como outras imagens ainda mais terríveis, enchiam e desfiguravam as paredes. Observei que os contornos de tais monstruosidades eram bastante nítidos, mas que as cores pareciam desbotadas e apagadas, como por efeito da umidade. Notei, então, que o piso era de pedra. Ao centro, abria-se o poço circular de cujas fauces eu escapara – mas era o único existente no calabouço.

Vi tudo isso confusamente e com muito esforço, pois minha condição física mudara bastante durante o sono. Estava agora estendido de costas numa espécie de andaime de madeira muito baixo, ao qual me achava fortemente atado por uma longa tira de couro. Esta dava muitas voltas em torno de meus membros e de meu corpo, deixando apenas livre a minha cabeça e o meu braço esquerdo, de modo a permitir que eu, com muito esforço, me servisse do aumento que se achava sobre um prato de barro, colocado no chão. Vi, horrorizado, que o púcaro havia sido retirado, pois uma sede intolerável me consumia. Pareceu-me que a intenção de meus verdugos era exasperar essa sede, já que o alimento que o prato continha consistia de carne muita salgada.

Levantei os olhos e examinei o teto de minha prisão. Tinha de nove a doze metros de altura e o material de sua construção assemelhava-se ao das paredes laterais. Chamou-me a atenção uma de suas figuras, bastante singular. Era a figura do Tempo, tal como é comumente representado, salvo que, em lugar da foice, segurava algo que me pareceu ser, ao primeiro olhar, um imenso pêndulo, como esses que vemos nos relógios antigos. Havia alguma coisa, porém, na aparência desse objeto, que me fez olhá-lo com mais atenção.

Enquanto a observava diretamente, olhando para cima, pois se achava colocada exatamente sobre minha cabeça, tive a impressão de que o pêndulo se movia. Um instante depois, vi que minha impressão se confirmava. Seu oscilar era curto e, por conseguinte, lento. Observei-o, durante alguns minutos, com certo receio, mas, principalmente, com espanto. Cansado, por fim, de observar o seu monótono movimento, voltei o olhar para outros objetos existentes na cela.

Um ligeiro ruído atraiu-me a atenção e, olhando para o chão, vi que enormes ratos o atravessavam. Tinham saído do poço, que ficava à direita. bem diante de meus olhos. Enquanto os olhava, saíam do poço em grande número, apressadamente, com olhos vorazes, atraídos pelo cheiro da carne. Foi preciso muito esforço e atenção de minha parte para afugentá-los.

Talvez houvesse transcorrido meia hora, ou mesmo uma hora – pois não me era possível perceber bem a passagem do tempo -, quando levantei de novo os olhos para o teto. O que então vi me deixou atônito, perplexo. O oscilar do pêndulo havia aumentado muito, chegando quase a uma jarda. Como consequência natural, sua velocidade era também muito maior. Mas o que me perturbou, principalmente, foi a ideia de que havia, imperceptivelmente, descido. Observei, então – tomado de um horror que bem se pode imaginar -, que a sua extremidade inferior era formada de uma lua crescente feita de aço brilhante, de cerca de um pé de comprimento de ponta a ponta. As pontas estavam voltadas pura cima e o fio inferior era, evidentemente, afiado como uma navalha. Também como uma navalha, parecia pesada e maciça, alargando-se, desde o fio, numa estrutura larga e sólida. Presa a cela havia um grosso cano de cobre, e tudo isso assobiava, ao mover-se no ar.

Já não me era possível alimentar qualquer dúvida quanto à sorte que me reservara o terrível engenho monacal de torturas. Os agentes da Inquisição tinham conhecimento de que eu descobrira o poço – o poço cujos horrores haviam sido destinados a um herege tão temerário quanto eu -, o poço, imagem do inferno, considerado como a Última Tule de todos os seus castigos. Um simples acaso me impedira de cair no poço, e eu sabia que a surpresa, ou uma armadilha que levasse ao suplício constituíam uma parte importante de tudo o que havia de grotesco naqueles calabouços de morte. Ao que parecia, tendo fracassado a minha queda no poço, não fazia parte do plano demoníaco o meu lançamento no abismo e, assim, não havendo outra alternativa, aguardava-me uma forma mais suave de destruição. Mais suave! Em minha angústia, esbocei um sorriso ao pensar no emprego dessas palavras.

Para que falar das longas, longas horas de horror mais do que mortal, durante as quais contei as rápidas oscilações do aço? Polegada a polegada, linha a linha, descia aos poucos, de um modo só perceptível a intervalos que para mim pareciam séculos. E cada vez descia mais, descia mais!…

Passaram-se dias, talvez muitos dias, antes que chegasse a oscilar tão perto de mim a ponto de me ser possível sentir o ar acre que deslocava. Penetrava-me as narinas o cheiro do aço afiado. Rezei – cansando o céu com as minhas preces – para que a sua descida fosse mais rápida. Tomado de frenética loucura, esforcei-me para erguer o corpo e ir ao encontro daquela espantosa e oscilante cimitarra. Depois, de repente, apoderou-se de mim uma grande calma e permaneci sorrindo diante daquela morte cintilante, como uma criança diante de um brinquedo raro.

Seguiu-se outro intervalo de completa insensibilidade -um intervalo muito curto, pois, ao voltar de novo à vida, não me pareceu que o pêndulo houvesse descido de maneira perceptível. Mas é possível que haja decorrido muito tempo; sabia que existiam seres infernais que tomavam nota de meus desfalecimentos e podiam deter, à vontade, o movimento do pêndulo. Ao voltar a mim, senti um mal-estar é uma fraqueza indescritíveis, como se estivesse a morrer de inanição. Mesmo entre todas as angústias por que estava passando, a natureza humana ansiava por alimento. Com penoso esforço, estendi o braço esquerdo tanto quanto me permitiam as ataduras e apanhei um resto de comida que conseguira evitar que os ratos comessem. Ao levar um bocado à boca, passou-me pelo espírito um vago pensamento de alegria… de esperança. Não obstante, .que é que tinha com a ver com a esperança? Era, como digo, um pensamento vago – desses que ocorrem a todos com frequência, mas que não se completam. Mas senti que era de alegria, de esperança. Como senti, também, que se extinguira antes de formar-se. Esforcei-me em vão por completá-lo… por reconquistá-lo. Meus longos sofrimentos haviam quase aniquilado todas as Faculdades de meu espírito. Eu era um imbecil, um idiota.

A oscilação do pêndulo se processava num plano que tomava um ângulo reto com o meu corpo. Vi que a lâmina fora colocada de modo a atravessar-me a região do coração. Rasgaria a fininha roupa, voltaria e repetiria a operação… de novo, de novo. Apesar da grande extensão do espaço percorrido – uns trinta pés, mais ou menos – e da sibilante energia de sua oscilação, suficiente para partir ao meio aquelas próprias paredes de ferro, tudo o que podia fazer, durante vários minutos, seria apenas rasgar as minhas roupas. E, ao pensar nisso, detive-me. Não ousava ir além de tal reflexão. Insisti sobre ela com toda atenção, como se com essa insistência pudesse parar ali a descida da lâmina. Comecei a pensar no som que produziria ao passar pelas minhas roupas, bem como na estranha e arrepiante sensação que o rasgar de uma fazenda produz sobre os nervos. Pensei em todas essas coisas fazendo os dentes rangerem, de tão contraídos.

Descia… cada vez descia mais a lâmina. Sentia um prazer frenético ao comparar sua velocidade de cima a baixo com a sua velocidade lateral. Para a direita… para a esquerda… num amplo oscilar… com o grito agudo de uma alma penada; para o meu coração, com o passo furtivo de um tigre! Eu ora ria, ora uivava, quando esta ou aquela ideia se tornava predominante.

Sempre para baixo… certa e inevitavelmente! Movia-se, agora, a três polegadas do meu peito! Eu lutava violentamente, furiosamente. para livrar o braço esquerdo. Este estava livre apenas desde o cotovelo até a mão. Podia mover a mão, com grande esforço, apenas desde o prato, que haviam colocado ao meu lado, até a boca. Nada mais. Se houvesse podido romper as ligaduras acima do cotovelo, teria apanhado o pêndulo e tentado detê-lo. Mas isso seria o mesmo que tentar deter uma avalancha!

Sempre mais baixo, incessantemente, inevitavelmente mais baixo! Arquejava e me debatia a cada vibração. Encolhia-me convulsivamente a cada oscilação. Meus olhos seguiam as subidas e descidas da lâmina com a ansiedade do mais completo desespero; fechavam-se espasmodicamente a cada descida, como se a morte houvesse sido um alívio… oh, que alívio indizível! Não obstante, todos os meus nervos tremiam. à ideia de que bastaria que a máquina descesse um pouco mais para que aquele machado afiado e reluzente se precipitasse sobre o meu peito. Era a esperança que fazia com que meus nervos estremecessem, com que todo o meu corpo se encolhesse. Era a esperança – a esperança que triunfa mesmo sobre o suplício -, a que sussurrava aos ouvidos dos condenados à morte, mesmo nos calabouços da Inquisição.

Vi que mais umas dez ou doze oscilações poriam o aço em contato imediato com as minhas roupas e, com essa observação, invadiu-me o espírito toda a calma condensada e viva do desespero. Pela primeira vez durante muitas horas – ou, talvez dias – consegui pensar. Ocorreu-me, então, que a tira ou correia que me envolvia o corpo era inteiriça. Não estava amarrada por meio de cordas isoladas.

O primeiro golpe da lâmina em forma. de meia lua sobre qualquer lugar da correia a desataria, de modo a permitir que minha mão a desenrolasse de meu corpo. Mas como era terrível, nesse caso, a sua proximidade. O resultado do mais leve movimento, de minha parte, seria mortal! Por outro lado, acaso os sequazes do verdugo não teriam previsto e impedido tal possibilidade? E seria provável que a correia que me atava atravessasse o meu peito justamente no lugar em. que o pêndulo passaria? Temendo ver frustrada essa minha fraca e, ao que parecia, última esperança, levantei a cabeça o bastante par ver bem o meu peito. A correia, envolvia-me os membros e o corpo fortemente em todas as direções, menos no lugar em que deveria passar a lâmina assassina.

Mal deixei cair a cabeça em sua posição anterior, quando senti brilhar em meu espírito algo que só poderia descrever aproximadamente, dizendo que era como que a metade não formada da ideia de liberdade a que aludi anteriormente, e da qual apenas uma parte flutuou vagamente em meu espírito quando levei o alimento aos meus lábios febris. Agora, todo o pensamento estava ali presente – débil, quase insensato, quase indefinido -, mas, de qualquer maneira, completo. Procurei imediatamente, com toda a energia nervosa do desespero, pô-lo em execução.

Havia várias horas, um número enorme de ratos se agitava junto do catre em que me achava estendido. Eram temerários, ousados, vorazes; fitavam sobre mim os olhos vermelhos, como se esperassem apenas minha imobilidade para fazer-me sua presa. “A que espécie de alimento”, pensei, “estão eles habituados no poço?” Haviam devorado, apesar de todos os meus esforços para o impedir, quase tudo o alimento que se encontrava no prato, salvo uma pequena parte. Minha mão se acostumara a um movimento oscilatório sobre o prato e, no fim, a uniformidade inconsciente de tal movimento deixou de produzir efeito. Em sua veracidade, cravavam frequentemente em meus dedos os dentes agudos. Com o resto da carne oleosa e picante que ainda sobrava. esfreguei fortemente, até o ponto em que podia alcançá-la, a correia com que me haviam atado. Depois, erguendo a mão do chão, permaneci imóvel, quase sem respirar.

A princípio, os vorazes animais ficaram surpresos c aterrorizados com a mudança verificada – com a cessação de qualquer movimento. Mas isso apenas durante um momento. Não fora em vão que eu contara com a sua voracidade. Vendo que eu permanecia imóvel, dois ou três dos mais ousados soltaram sobre o catre e puseram-se a cheirar a correia. Dir-se-ia que isso foi o sinal para a investida geral. Vindos da parede, arremeteram em novos bandos. Agarraram-se ao estrado, galgaram-no e pularam. as centenas sobre o meu corpo. O movimento rítmico do pêndulo não os perturbava de maneira alguma. Evitando seus golpes, atiraram-se à correia besuntada. Apertavam-se, amontoavam-se sobre mim. Contorciam-se sobre meu pescoço; seus focinhos, frios. procuravam meus lábios. Sentia-me quase sufocado sob o seu peso. Um asco espantoso, para o qual não existe nome, enchia-me o peito e gelava-me, com pegajosa umidade, o coração. Mais um minuto, e percebia que a operação estaria terminada. Sentia claramente que a correia afrouxava. Sabia que, em mais de um lugar, já devia estar completamente partida. Com uma determinação sobre-humana continuei imóvel.

Não errei em meus cálculos; todos esses sofrimentos não foram em vão. Senti, afinal, que estava livre. A correia pendia, em pedaços, de meu corpo. Mas o movimento do pêndulo já se realizava sobre o meu peito. Tanto a sarja da minha roupa, como a camisa que vestia já haviam sido cortadas. O pêndulo oscilou ainda por duas vezes, e uma dor aguda me penetrou todos os nervos. Mas chegara o momento da salvação. A um gesto de minha mão, meus libertadores fugiram tumultuosamente. Com um movimento decidido, mas cauteloso, deslizei encolhido, lentamente, para o lado, livrando-me das correias e da lâmina da cimitarra. Pelo menos naquele momento, estava livre.

Livre! E nas garras da Inquisição! Mal havia escapado daquele meu leito de horror e dado uns passos pelo piso de pedra da prisão, quando cessou o movimento da máquina infernal e eu a vi subir, como que atraída por alguma força invisível, para o teto. Aquela foi uma lição que guardei desesperadamente no coração. Não havia dúvida de que os meus menores gestos eram observados. Livre! Escapara por pouco à morte numa determinada forma de agonia, apenas para ser entregue a uma outra, pior do que a morte. Com este pensamento, volvi os olhos, nervosamente, para as paredes de ferro que me cercavam. Algo estranho – uma mudança que, a princípio, não pude apreciar claramente – havia ocorrido, evidentemente, em minha cela. Durante muitos minutos de trêmula abstração, perdi-me em conjeturas vãs e incoerentes. Pela primeira vez percebi a origem da luz sulfurosa que alumiava a cela. Procedia de uma fenda, de cerca de meia polegada de largura, que se estendia em torno do calabouço, junto a base das paredes, que pareciam, assim, e, na verdade estavam, completamente separadas do solo. Procurei, inutilmente, olhar através dessa abertura.

Ao levantar-me, depois dessa tentativa, o mistério da modificação verificada tornou sê-me, subitamente, claro. Já observara que, embora os contornos dos desenhos das paredes fossem bastante nítidos, suas cores, não obstante, pareciam apagadas e indefinidas. Essas cores, agora, haviam adquirido, e estavam ainda adquirindo, um brilho intenso e surpreendente, que dava às imagens fantásticas e diabólicas um aspecto que teria arrepiado nervos mais firmes do que os meus. Olhos demoníacos, de uma vivacidade sinistra e feroz, cravavam-se em mim de todos os lados, de lugares onde antes nenhum deles era visível, com um brilho ameaçador que eu, em vão, procurei considerar como irreal.

Irreal! Bastava-me respirar para que me chegasse às narinas o vapor de ferros em brasa! Um cheiro sufocante invadia a prisão! Um brilho cada vez mais profundo se fixava nos olhos cravados em minha agonia! Um vermelho mais vivo estendia-se sobre aquelas pinturas horrorosas e sangrentas. Eu arquejava. Respirava com dificuldade. Não poderia haver dúvida quanto à intenção de meus verdugos, os mais implacáveis, os mais demoníacos de todos os homens! Afastei-me do metal incandescente, colocando-me ao centro da cela. Ante a perspectiva da morte pelo fogo, que me aguardava, a ideia da frescura do poço chegou à minha alma como um bálsamo. Precipitei-me para as suas bordas mortais. Lancei o olhar para o fundo. O resplendor da abóbada iluminava as suas cavidades mais profundas. Não obstante, durante um minuto de desvario, meu espírito se recusou a compreender o significado daquilo que eu via. Por fim, aquilo penetrou, à força, em minha alma, gravando-se a fogo em minha trêmula razão. Oh, indescritível! Oh, horror dos horrores! Com um grito, afastei-me do poço e afundei o rosto nas mãos, a soluçar amargamente.

O calor aumentava rapidamente e, mais uma vez, olhei para cima, sentindo um calafrio. Operara-se uma grande mudança na cela – e, dessa vez, a mudança era, evidentemente, de forma. Como acontecera antes, procurei inutilmente apreciar ou compreender o que ocorria. Mas não me deixaram muito tempo em dúvida. A vingança da Inquisição se exacerbara por eu a haver frustrado por duas vezes – e não mais permitiria que zombasse dela! A cela, antes, era quadrada. Notava, agora, que dois de seus ângulos de ferro eram agudos, sendo os dois outros, por conseguinte, obtusos. Com um ruído surdo, gemente, aumentava rapidamente o terrível contraste. Num instante, a cela adquirira a forma de um losango. Mas a modificação não parou aí – nem eu esperava ou desejava que parasse. Poderia haver apertado as paredes incandescentes de encontro ao peito, como se fossem uma vestimenta de eterna paz. “A morte”, disse de mim para comigo. “Qualquer morte, menos a do poço!” Insensato! Como não pude compreender que era para o poço que o ferro em brasa me conduzia? Resistiria eu ao seu calor? E, mesmo que resistisse, suportaria sua pressão? E cada vez o losango se aproximava mais, com uma rapidez que não me deixava tempo para pensar. Seu centro e, naturalmente, a sua parte mais larga chegaram até bem junto do abismo aberto. Recuei, mas as paredes, que avançavam, me empurravam, irresistivelmente, para a frente. Por fim, já não existia, para o meu corpo chamuscado e contorcido, senão um exíguo lugar para firmar os pés, no solo da prisão. Deixei de lutar, mas a angústia de minha alma se extravasou em forte e prolongado grito de desespero. Senti que vacilava à boca do poço, e desviei os olhos… Mas ouvi, então, um ruído confuso de vozes humanas! O som vibrante de muitas trombetas! E um rugido poderoso, como de mil trovões, atroou os ares! As paredes de fogo recuaram precipitadamente! Um braço estendido agarrou o meu, quando eu, já quase desfalecido, caía no abismo. Era o braço do General Lassalle. O exército francês entrara em Toledo. A Inquisição estava nas mãos de seus inimigos.

Edgar Allan Poe

Sherlock Holmes

shutterstock_110867483-1Sherlock Holmes, personagem fictício criado pelo escritor escocês Arthur Conan Doyle . Holmes apareceu pela primeira vez em A Study in Scarlet , de Conan Doyle, publicado no Beeton’s Christmas Annual de 1887. Como o primeiro e único “detetive consultor” do mundo, ele perseguia criminosos na Londres vitoriana e eduardiana, no sul da Inglaterra e na Europa continental. Embora o detetive fictício tenha sido antecipado por C. Auguste Dupin, de Edgar Allan Poe, e Monsieur Lecoq, de Émile Gaboriau , Holmes causou um impacto singular na imaginação popular e foi o personagem mais duradouro da história policial .

          Conan Doyle modelou os métodos e maneirismos de Holmes com os do Dr. Joseph Bell, que havia sido seu professor na University of Edinburgh Medical School. Em particular, a incrível capacidade de Holmes de reunir evidências baseadas em suas habilidades de observação e raciocínio dedutivo se assemelhava ao método de Bell de diagnosticar a doença de um paciente. Holmes ofereceu alguns insights sobre seu método, alegando que “Quando você excluiu o impossível, o que quer que permaneça, por mais improvável que seja, deve ser a verdade”. Suas habilidades de detecção tornam-se claras, embora não menos surpreendentes, quando explicadas por seu companheiro. Dr. John H. Watson, que relata os casos criminais que eles buscam em conjunto. Embora Holmes rejeite louvor, declarando suas habilidades para ser “elementar”, a frase muito citada “Elementar, meu caro Watson,” nunca aparece realmente nos escritos de Conan Doyle.

          As narrações de Watson descrevem Holmes como um personagem muito complexo e mal-humorado que, embora de rígido hábito, é consideravelmente desarrumado. Sua residência em Londres, na Baker Street, 221B, é cuidada por sua governanta, a Sra. Hudson. Holmes parece sofrer surtos de mania e depressão, os últimos são acompanhados por cachimbo, violino e cocaína . Ao longo dos quatro romances e 56 contos com Holmes, vários personagens se repetem, incluindo o desastrado inspetor da Scotland Yard Lestrade ; o grupo de “árabes de rua” conhecidos como os Irregulares da Rua Baker, que são rotineiramente empregados por Holmes como informantes; seu irmão ainda mais sábio, mas menos ambicioso, Mycroft; e mais notavelmente, sua formidável oponente, Professora James Moriarty , a quem Holmes considera o “Napoleão do crime”.

         Alegando que Holmes o distraiu “de coisas melhores”, Conan Doyle notoriamente em 1893 (“O problema final ”) tentou matá-lo; Durante uma luta violenta contra as cataratas suíças de Reichenbach, Holmes e seu inimigo, o professor Moriarty, estão mergulhados na beira do precipício. O clamor popular contra o desaparecimento de Holmes foi grande; os homens usavam bandos de luto negros, a família real britânica estava perturbada e mais de 20.000 leitores cancelaram suas assinaturas para a popular revista Strand, na qual Holmes aparecia regularmente. Por demanda popular, Conan Doyle ressuscitou seu detetive na história “A Aventura da Casa Vazia” (1903).

         Holmes permaneceu uma figura popular no século XXI. Entre as histórias mais populares em que ele é caracterizado são “A Aventura do Carbuncle Azul” (1892), “A Aventura da Banda Speckled” (1892), “A Aventura dos Seis Napoleões” (1904), e o romance O Cão dos Baskervilles (1902). O personagem de Holmes também foi traduzido para outras mídias, e ele é amplamente conhecido no palco e na tela. O ator mais antigo a ter interpretado o papel é William Gillette (um membro fundador da sociedade New York Holmes, ainda conhecida como Irregulares da Baker Street), que fez várias representações teatrais populares na virada do século XX. Aqueles que apareceram como Holmes na tela incluem Basil Rathbone, Peter Cushing., Jeremy Brett, Robert Downey, Jr., Benedict Cumberbatch e Jonny Lee Miller . Ironicamente dois dos emblemas de Holmes, seu cachimbo de meerschaum e chapéu de caça-à-guerra, não são originais dos escritos de Conan Doyle. Gillette introduziu o cachimbo de Meerschaum curvo (acredita-se que tenha sido mais fácil para o ator durante uma longa apresentação), e Sidney Paget, o chapéu de caçador de cervos mais de uma ilustração para The Strand of Holmes trabalhando em suas investigações no país.

         Além de inúmeras traduções das aventuras de Holmes em todo o mundo, um gênero de paródias e pastiches foi desenvolvido com base no personagem de Sherlock Holmes. Uma coleção inteira de “crítica superior” mais acadêmica dos escritos de Conan Doyle foi iniciada por “Estudos na literatura de Sherlock Holmes” (1912), de Ronald Knox . Crítica subsequente superior é sintetizada pelo trabalho que aparece no The Baker Street Journal (iniciado em 1946), publicado pela Baker Street Irregulars. Os devotos de Holmes, conhecidos como Sherlockianos ou Holmesianos, frequentemente se reúnem em sociedades de todo o mundo para homenagear o mestre detetive com um fervor cultista. As mais estabelecidas dessas sociedades são as Baker Street Irregulars , fundada em 1934, e a Sherlock Holmes Society de Londres , fundada em 1951 e aberta a todos. A última, que publica o Sherlock Holmes Journal, traça suas origens para a Sherlock Holmes Society que foi formada em Londres em 1934 e contou entre seus membros a estudiosa e escritora Dorothy L. Sayers ; cessou suas atividades na década de 1940.

De Russ Stutler – http://www.stutler.cc/other/misc/baker_street.html, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=1127300800px-221B_Baker_Street

Esta é uma livre tradução, texto original disponivel em:

https://www.britannica.com/topic/Sherlock-Holmes

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