O visitante inesperado

Agatha Christie

Conheço pessoas que apreciam atravessar o canal; pessoas que relaxam nas
espreguiçadeiras do convés e, na chegada, esperam o barco ser atracado para
então reunir seus pertences sem estardalhaço e desembarcar. Quanto a mim,
nunca fui capaz disso. Tão logo subo a bordo, sinto que o tempo será curto
demais para eu me aquietar ou me concentrar em algo. Fico levando a bagagem
para lá e para cá e, se desço ao restaurante, engulo a comida com a sensação de
que o barco pode chegar a qualquer momento comigo lá embaixo. Talvez isso
seja mera herança das viagens-relâmpago do tempo da guerra, quando parecia
questão de extrema relevância garantir um lugar perto da escada e ser um dos
primeiros a desembarcar para não desperdiçar os minutos preciosos dos três ou
cinco dias de licença.
Nesta manhã de julho em especial, enquanto eu observava junto à amurada
os penhascos brancos de Dover se aproximarem cada vez mais, fiquei me
perguntando, admirado, como certos passageiros permaneciam calmos nas
espreguiçadeiras sem ao menos levantar os olhos para rever sua terra natal. Mas
talvez o caso deles fosse diferente do meu. Com certeza, a maioria só havia
passado o fim de semana em Paris, enquanto eu estivera um ano e meio numa
fazenda na Argentina. Por lá prosperei, e minha mulher e eu desfrutamos da vida
livre e tranquila do continente sul-americano; mas foi com um nó na garganta
que observei a costa familiar se aproximando cada vez mais.
Eu desembarcara na França dois dias antes, resolvera alguns negócios
prementes e agora estava a caminho de Londres. Pretendo ficar lá por alguns
meses – tempo suficiente para encontrar velhos amigos e um velho amigo em
particular. Um homem pequenino de cabeça oval e olhos verdes: Hercule Poirot!
Tenciono pegá-lo totalmente de surpresa. Minha última carta enviada da
Argentina não dera nenhuma pista sobre minha viagem (na verdade, eu decidira
viajar de última hora, como resultado de certos contratempos comerciais), e
passei muitos momentos divertidos imaginando com meus botões sua cara de
encanto e de surpresa ao me ver.
Poirot, eu sabia, dificilmente estaria muito longe de seu quartel-general. A
época em que suas missões o levavam duma ponta a outra da Inglaterra chegara
ao fim. Sua fama se espalhara; agora não permitia mais que uma investigação
absorvesse todo o seu tempo. Com o passar dos anos, cada vez mais seu objetivo
era ser considerado um “detetive-consultor” – tão especialista quanto um médico
da Harley Street. Ele sempre tratava com escárnio a noção popular do sabujo
humano que lançava mão de incríveis disfarces para rastrear os criminosos e que
parava para medir cada pegada.
– Não, meu caro Hastings – ele costumava dizer –, vamos deixar isso para
Giraud e seus amigos. Os métodos de Hercule Poirot são muito particulares.
Organização, método e as “pequenas células cinzentas”. Sem sair do conforto de
nossas poltronas, percebemos coisas que os outros deixam passar e não tiramos
conclusões precipitadas como o honrado Japp.
Sim. Era pequeno o risco de encontrar Hercule Poirot longe de sua base.
Chegando a Londres, larguei a bagagem no hotel e apanhei um táxi para o antigo
endereço. Que lembranças intensas o local suscitou-me! Cumprimentei depressa
a antiga senhoria, subi as escadas de dois em dois degraus e bati vivamente à
porta de Poirot.
– Pode entrar – gritou lá de dentro uma voz conhecida.
Entrei a passos largos. Poirot me fitou. Carregava uma pequena valise e, ao
me ver, deixou-a cair com espalhafato.
– Hastings, mon ami! – exclamou. – Hastings, mon ami!
Vindo ao meu encontro, envolveu-me num amplo abraço. Nossa conversa
foi ilógica e desconexa. Exclamações, perguntas ansiosas, respostas incompletas,
recados de minha esposa, explicações sobre a viagem, tudo junto e mesclado.
– Será que tem alguém no meu antigo quarto? – indaguei quando nossa
exaltação se acalmou um pouco. – Eu adoraria morar com você aqui outra vez.
O rosto de Poirot mudou numa rapidez surpreendente.
– Mon Dieu! Mas que chance épouvantable. Dê uma olhada ao redor, meu
caro.
Pela primeira vez tomei consciência das coisas à minha volta. Contra a
parede havia um enorme baú de estilo pré-histórico. Próximo a ele estavam
dispostas algumas valises, arranjadas ordenadamente conforme o tamanho, desde
a maior até a menor. A inferência era inequívoca.
– Vai viajar?
– Sim.
– Para onde?
– América do Sul.
– O quê?!
– Sim, parece piada, não é? Estou indo para o Rio e todo santo dia repito
comigo: não vou contar nada em minhas cartas… Mas ah! Que surpresa o bom
Hastings terá ao me ver!
– Mas quando você vai?
Poirot olhou o relógio.
– Daqui a uma hora.
– Ué, não era você que dizia que nunca ia fazer uma travessia
transatlântica?
Poirot fechou os olhos e estremeceu.
– Nem me fale, meu caro. Meu médico garantiu-me que ninguém morre
disso… e vai ser uma viagem só de ida. Entenda, eu nunca, nunca vou retornar.
Ele me fez sentar numa cadeira.
– Venha cá, vou contar como isso tudo aconteceu. Sabe quem é o homem
mais rico do mundo? Mais rico até do que Rockefeller? Abe Ryland.
– Aquele norte-americano, o rei do sabão?
– Exato. Uma das secretárias dele entrou em contato comigo. Tem uma
coisa graúda, como se diz, uma fraude acontecendo relacionada a uma grande
empresa no Rio. Ele queria que eu investigasse o assunto no local. Eu disse que
não. Mandei dizer que, se os fatos fossem colocados à minha frente, eu daria
minha opinião de especialista. Mas ele alegou ser incapaz de fazer isso. Eu só
ficaria a par dos fatos ao chegar lá. Em situações normais, isso teria encerrado a
questão. Querer impor condições para Hercule Poirot é impertinência pura. Mas
a quantia ofertada era tão estupenda, que pela primeira vez na minha vida
balancei pelo vil metal. Era mais que uma bolada… uma fortuna! Sem falar na
segunda atração: você, meu caro. Nesse ano e meio que passou, me senti um
velho solitário. Pensei comigo: por que não? Começo a ficar saturado dessa
interminável obrigação de solucionar problemas tolos. Já alcancei fama
suficiente. Vou aceitar esse dinheiro e me aquietar em algum lugar perto de meu
velho amigo.
Fiquei profundamente emocionado com essa demonstração de estima vinda
de Poirot.
– Então topei – continuou ele – e daqui a uma hora preciso pegar o trem
para o porto. Uma dessas ironias da vida, não é? Mas eu vou lhe confessar,
Hastings: se o dinheiro não fosse tanto, eu teria hesitado, pois coincidentemente
não faz muito que comecei uma investigação por minha conta. Me diga, o que
quer dizer a expressão “Os Quatro Grandes”?
– Acho que se originou na Conferência de Versalhes. Depois surgiram as
famosas “Quatro Grandes” do mundo cinematográfico. E o termo é usado
também pela plebe.
– Percebo – disse Poirot, pensativo. – Sabe, deparei-me com essa expressão
sob certas circunstâncias em que não se encaixa nenhuma dessas explicações.
Parece se referir a uma quadrilha de criminosos internacionais ou algo do tipo.
Mas…
– Mas o quê? – perguntei, notando sua hesitação.
– Mas algo me diz que se trata de uma escala maior. Só uma ideiazinha,
nada mais. Bom, agora eu tenho que terminar as malas. O tempo voa.
– Não vá – pedi. – Cancele a passagem e vamos juntos no mesmo barco.
Poirot empertigou-se e fitou-me com olhos reprovadores.
– Ah, você não entende! Dei minha palavra, sabe… a palavra de Hercule
Poirot. Só uma questão de vida ou morte pode me impedir de cumpri-la.
– Questão improvável de acontecer – murmurei desanimado. – A menos
que “na décima primeira hora, a porta se abra e apareça o visitante inesperado”.
Citei o velho provérbio com uma risada fraca. Seguiu-se uma pausa. Então,
um barulho no quarto nos sobressaltou.
– O que será isto? – gritei.
– Ma foi! – retorquiu Poirot. – Parece que o tal “visitante inesperado” está
no meu quarto.
– Mas como pode haver alguém ali? Para entrar no quarto é preciso passar
por esta sala.
– Excelente memória, Hastings. Do que se deduz…
– A janela! Mas então é um assaltante? Deve ter feito uma escalada
íngreme… quase impossível.
Levantei-me e andei a passos largos rumo à porta do quarto, quando o som
de alguém experimentando a maçaneta do outro lado deteve-me.
A porta abriu-se devagar. Emoldurado no vão da porta, um homem imóvel.
Sujo e enlameado da cabeça aos pés, o rosto fino e macilento. Encarou-nos por
um instante, então cambaleou e desabou. Poirot correu para junto dele. O
homem levantou o olhar e falou comigo.
– Conhaque… rápido.
Com rapidez servi e trouxe um cálice de conhaque. Poirot deu um jeito de
fazê-lo beber um gole. Juntos, conseguimos erguê-lo e levá-lo ao sofá. Minutos
depois, ele abriu as pálpebras e percorreu a sala com um olhar quase ausente.
– O que deseja, monsieur? – indagou Poirot.
O homem abriu os lábios e falou com uma voz mecânica e estranha:
– Monsieur Hercule Poirot, Farraway Street, 14.
– Sim, sim, ele mesmo.
O homem pareceu não ter entendido e limitou-se a repetir exatamente no
mesmo tom:
– Monsieur Hercule Poirot, Farraway Street, 14.
Poirot testou-o com várias perguntas. Às vezes o homem não respondia
nada, em outras repetia a mesma frase. Com um sinal, Poirot pediu-me para
fazer uma ligação.
– Chame o dr. Ridgeway.
Para nossa sorte, o doutor estava em casa. Como a casa dele ficava logo
dobrando a esquina, poucos minutos transcorreram até ele entrar apressado.
– Afinal, o que se passa?
Poirot deu uma rápida explicação, e o doutor começou a examinar nosso
esquisito visitante, que parecia não se dar conta da presença do médico nem da
nossa.
– Hum… – murmurou o dr. Ridgeway ao terminar. – Caso curioso.
– Febre cerebral? – sugeri.
O doutor prontamente bufou com desdém.
– Febre cerebral! Febre cerebral! Não existe esse tipo de coisa. Só na
cabeça dos romancistas. Nada disso: o homem sofreu uma espécie de choque.
Veio aqui impelido por uma ideia fixa: encontrar o monsieur Hercule Poirot,
Farraway Street, 14… fica repetindo essas palavras mecanicamente sem ao
menos pensar no significado.
– Afasia? – indaguei ansioso.
Esse palpite não provocou reação tão violenta quanto o anterior. Sem dizer
nada, o doutor entregou lápis e papel ao homem.
– Vamos ver o que ele faz com isso – observou.
Durante um tempo, o homem não fez nada. Então, de súbito, começou a
escrever febrilmente. Com a mesma rapidez, parou e deixou cair o papel e o
lápis no chão. O doutor apanhou e meneou a cabeça.
– Nada feito. Só o número 4 rabiscado uma dúzia de vezes, cada algarismo
maior do que o outro. Calculo que tente escrever Farraway Street, 14. É um caso
intrigante… deveras intrigante. Seria possível mantê-lo aqui até hoje à tarde?
Agora preciso passar no hospital, mas à tarde estou de volta e posso tomar todas
as providências que o caso requer. É um caso muito interessante para se perder
de vista.
Expliquei sobre a partida de Poirot e que eu me propusera a acompanhá-lo
até Southampton.
– Tudo bem. Deixem o homem aqui. Ele não vai fazer nada de errado. Está
completamente exausto. É bem provável que durma oito horas a fio. Vou pedir à
nossa esplêndida sra. Cara-Engraçada para dar uma olhadinha nele.
E o dr. Ridgeway retirou-se com a celeridade de sempre. Poirot, por sua
vez, terminou de arrumar as malas sem tirar o olho do relógio.
– O tempo corre com rapidez inacreditável. Vamos, Hastings, não pode
alegar que deixei você sem nada para fazer. Que problema mais sensacional! Um
homem desconhecido. Quem é ele? O que ele quer? Ah, sapristi, eu daria dois
anos de minha vida para que esse barco partisse amanhã em vez de hoje. Tem
algo muito curioso nessa história… algo muito interessante. Mas é preciso ter
tempo… tempo. Pode levar dias… ou até mesmo meses… até ele ser capaz de nos
contar por que veio.
– Vou fazer o melhor possível, Poirot – garanti. – Vou tentar ser um
substituto eficiente.
– S… sim.
Não senti muita firmeza na resposta. Apanhei a folha de papel.
– Se eu fosse escrever uma história – eu disse em tom de brincadeira,
tamborilando os números a lápis –, eu ligaria isso à sua última idiossincrasia e a
chamaria de O mistério dos Quatro Grandes.
Então levei um susto, pois o nosso paciente, acordado de súbito do estupor,
sentou-se na cadeira e pronunciou de modo claro e compreensível:
– Li Chang Yen.
O olhar dele era o de um homem recém-desperto do sono. Poirot fez sinal
para eu não falar nada. O homem prosseguiu. Falou numa voz clara e aguda. Às
vezes sua enunciação me dava a impressão de que ele estava fazendo uma
preleção ou lendo um relatório escrito.
– Li Chang Yen pode ser considerado o cérebro dos Quatro Grandes. É a
força controladora e motivadora. Por isso o chamo de Número Um. Por sua vez,
Número Dois raramente é mencionado pelo nome. É representado por um “S”
com dois traços verticais (o símbolo do dólar) e também por duas listras e uma
estrela. Portanto, conclui-se que se trata de um indivíduo norte-americano e que
representa o poder financeiro. Não parece haver dúvida de que Número Três é
uma mulher, nem de que a nacionalidade dela é francesa. É possível que ela seja
uma das sereias do demi-monde, mas ninguém sabe nada ao certo. O Número
Quatro…
Sua voz titubeou e fraquejou. Poirot inclinou-se à frente.
– Sim, e o Quatro? – incitou, ansioso.
Os olhos de Poirot não desgrudavam do rosto do homem. Um certo terror
parecia dominar o dia; as feições estavam distorcidas e desfiguradas.
– O destruidor – ofegou o homem. E, com um último movimento
convulsivo, caiu para trás, inanimado.
– Mon Dieu! – sussurrou Poirot. – Então eu tinha razão. Eu tinha razão.
– Acha que…?
Ele me interrompeu.
– Leve-o até a cama no meu quarto. Não tenho um minuto a perder se eu
quiser pegar meu trem. Não que eu queira pegá-lo. Ah, e pensar que em sã
consciência estou perdendo essa história! Mas dei minha palavra. Vamos,
Hastings!
Deixando o nosso misterioso visitante a cargo da sra. Pearson, apanhamos
um táxi até a estação e por um triz não perdemos o trem. Poirot alternava
momentos calados e loquazes. Olhar fixo, encostava o rosto à janela, imerso em
sonho, sem parecer escutar nenhuma palavra do que eu dizia. Então, num estalo,
voltava à animação, despejando recomendações e ordens em cima de mim,
frisando a necessidade de constantes telegramas via rádio.
Caímos num demorado silêncio logo após passarmos Woking. É claro, o
trem não parou até chegar em Southampton, quando foi obrigado a parar devido
a uma sinalização.
– Ah! Sacré mille tonnerres! – gritou Poirot de repente. – Mas que imbecil
eu tenho sido. Agora vejo tudo com clareza. Sem dúvida foram os santos
abençoados que pararam o trem. Pule, Hastings, pule agora, estou dizendo.
Num instante ele destrancou a porta do vagão e saltou fora do trem.
– Jogue as malas e pule também.
Obedeci-lhe. Bem a tempo. Na hora em que coloquei os pés nas britas, o
trem andou.
– E agora, Poirot – eu disse um tanto exasperado –, talvez você possa me
dizer o que está acontecendo.
– Meu caro, acontece que eu vi a luz.
– Isso – respondi – é muito esclarecedor.
– Deveria ser – disse Poirot –, mas tenho medo… muito medo de que não
seja. Se você carregar duas valises, acho que consigo levar o resto.

O caso da esposa de meia-idade

         Quatro grunhidos, uma voz indignada pergun­tando por que alguém não deixava em paz um chapéu, uma porta fechada com estrondo e o Sr. Packington saiu para pegar o trem das oito e quarenta e cinco para a cidade. A Sra. Packington sentou-se à mesa do café. Tinha o rosto ruborizado e os lábios apertados: e só não chorava porque a mágoa tinha sido substituída pela raiva.

— Não aguento mais — disse a Sra. Packington. — Não aguento mais! — ficou pensativa por alguns mo­mentos e depois murmurou:

— Aquela sirigaita. Que mulherzinha hipócrita e indecente! Como George pôde ser tão estúpido!

A raiva passou; voltou a mágoa. As lágrimas enche­ram os olhos da Sra. Packington e rolaram lentamente pelo seu rosto de mulher madura.

— É muito fácil dizer que eu não agüento mais, mas o que é que eu posso fazer?

De repente, sentiu-se sozinha e indefesa, comple­tamente abandonada. Com gestos lentos, pegou o jornal e leu — não pela primeira vez — um anúncio de primeira página: CONFIDENCIALVOCÊ É FELIZ? SE NÃO FOR, CONSULTE O SR. PARKER PYNE. RUA RICHMOND, 17.

— Absurdo! — disse a Sra. Packington. — Comple­tamente absurdo! —

e depois:

— Enfim, não custa tentar…

         Eis por que, às onze horas da manhã, a Sra. Packington, um pouco nervosa, entrou no escritório parti­cular do Sr. Parker Pyne.A Sra. Packington estava nervosa, sim, mas a sim­ples visão do Sr. Parker Pyne lhe deu uma impressão de segurança. Ele era forte, para não dizer gordo; tinha uma cabeça calva bem proporcionada, óculos de lentes grossas e pequenos olhos brilhantes.

— Sente-se, por favor — disse o Sr. Parker Pyne.

— Viu o meu anúncio? — perguntou, para ajudá-la.

Sim — disse a Sra. Packington, e não disse mais nada.

— E não é feliz — disse o Sr. Parker Pyne numa voz jovial e prática. — Muito poucas pessoas o são. A se­nhora ficaria surpresa se soubesse que muito poucas pessoas são felizes.

— É mesmo? — perguntou a Sra. Packington sem convicção e pouco se importando que as outras pessoas fossem ou não infelizes.

— Eu sei que isso não lhe interessa — disse o Sr. Parker Pyne, — mas a mim interessa muito. Veja a se­nhora que durante trinta e cinco anos da minha vida eu só fiz compilar estatísticas numa repartição do Go­verno. Agora que me aposentei, me ocorreu a idéia de aproveitar de uma maneira diferente toda a experiência que adquiri. É tudo muito simples. As desgraças todas podem ser classificadas em cinco categorias principais — nem mais nem menos, posso lhe garantir. Uma vez conhecida a causa de uma doença, a cura passa a ser perfeitamente possível. Eu me coloco no papel de um médico. Primeiro o médico diagnostica o mal do pa­ciente, depois prescreve o tratamento. Há casos em que nenhum tratamento dá resultado. Quando é assim, digo com toda a franqueza que não posso fazer nada. Mas lhe garanto, Sra. Packington, que se eu tomar conta de seu caso, a cura é praticamente garantida.

Seria possível? Seria uma tolice ou seria verdade? A Sra. Packington olhou esperançosa para ele.— Podemos diagnosticar o seu caso? — disse o Sr. Parker Pyne sorrindo. Recostou-se em sua cadeira e juntou as pontas dos dedos das mãos. — O problema diz respeito a seu marido. De um modo geral a senhora teve um casamento feliz. Creio que seu marido prosperou. Suponho que haja uma jovem neste caso… talvez uma moça que trabalhe no escritório de seu marido.

— Uma datilografa — disse a Sra. Packington.

— Uma sirigaitazinha falsa e indecente, cheia de batom e meias de seda e cachinhos.

As palavras saíram aos bor­botões. .O Sr. Parker Pyne balançou a cabeça de maneira apaziguadora.

— Não há nada de mal nisso… certa­mente é isso o que o seu marido diz…

— É exatamente isso.

— E por que não poderia ele manter uma amizade pura com esta moça e proporcionar um pouquinho de alegria e prazer a sua existência tão monótona? Pobre menina! Ela se diverte tão pouco… Suponho que sejam estes os seus sentimentos.

A Sra. Packington fez que sim com a cabeça, vigoro­samente — Um embuste… tudo um embuste! Ele a leva ao rio… eu também gosto muito de ir ao rio, mas há uns cinco ou seis anos ele me disse que isso atrapalhava o golfe dele. Agora ele deixou o golfe de lado por causa dela. Eu gosto de teatro, mas George vivia dizendo que estava muito cansado para sair de noite. Agora sai com ela para dançar — dançar! E volta às três da ma­drugada! Eu… eu…

— E sem dúvida ele lamenta o fato de que as mu­lheres sejam tão ciumentas… tão injustificavelmente ciumentas, quando não há nenhum motivo para o ciúme?

Novamente a Sra. Packington fez que sim com a ca­beça — é isso — perguntou secamente: — Como é que o senhor sabe disso?

— Estatísticas — disse o Sr. Parker Pyne com sim­plicidade.

— Eu sou tão infeliz — disse a Sra. Packington. — Sempre fui uma esposa dedicada para George. Gastei as minhas unhas até o sabugo nos primeiros anos da nossa vida. Eu o ajudei a vencer. Nunca olhei para outro homem. Suas roupas estão sempre em ordem, a comida é boa, cuido muito bem da casa, e com economia. E agora que superamos as dificuldades e poderíamos nos divertir, sair um pouco e fazer todas as coisas que eu tinha von­tade de fazer algum dia… vai acontecer isso! — ela en­goliu em seco.

O Sr. Parker Pyne concordou gravemente

— Pode ficar certa de que compreendo perfeitamente o seu caso.

— E… pode fazer alguma coisa? — ela quase sus­surrou a pergunta.

— Certamente, minha cara senhora. Há cura. Cer­tamente que há cura.

— E qual é? — ela aguardava ansiosa, os olhos ar­regalados.O Sr. Parker Pyne falou com uma voz calma e firme.

— A senhora vai se colocar em minhas mãos, e meus ho­norários serão de duzentos guinéus.

— Duzentos guinéus!

— Exatamente. A senhora pode pagar isto, Sra. Packington. Pagaria por uma operação. A felicidade é tão importante quanto a saúde do corpo.

— Suponho que vou pagar depois.

— Pelo contrário — disse o Sr. Parker Pyne. — A senhora vai me pagar adiantado.

A Sra. Packington se levantou — Não vejo por que…

— A senhora teme comprar gato por lebre? — disse o Sr. Pyne jovialmente. — Bem, talvez a senhora tenha razão. É muito dinheiro para arriscar. A senhora tem que confiar em mim. Pagar e correr o risco. São estas as minhas condições.

— Duzentos guinéus!

— Exatamente. Duzentos guinéus. É muito dinheiro.

         Bom dia, Sra. Packington. Me avise se mudar de idéia — apertou-lhe a mão, sorrindo, imperturbável. Depois que ela saiu, apertou um botão na sua mesa. Uma moça de óculos e ar severo respondeu ao chamado.

— Um fichário, por favor, Srta. Lemon. E pode também avisar a Claude que eu talvez vá precisar dele brevemente.

— Uma nova cliente?

— Uma nova cliente. Por enquanto ela está relu­tante, mas vai voltar. Provavelmente hoje à tarde, lá pelas quatro horas. Pode deixar entrar.

— Esquema A?

— Esquema A, é lógico. É engraçado como todo mundo pensa que o seu próprio caso é único. Bom, avise Claude. Diga-lhe para não parecer muito exótico. Nada de perfume, e é melhor ele cortar o cabelo. Passavam quinze minutos das quatro horas quando a Sra. Packington entrou de novo no escritório do Sr. Parker Pyne. Tirou da bolsa um livro de cheques, pre­encheu um deles e o entregou. Em troca obteve um re­cibo.

— E agora? — a Sra. Packington olhou esperançosa para ele.

— Agora — disse o Sr. Pyne sorrindo, — a senhora vai voltar para casa. Pelo primeiro correio de amanhã vai receber algumas instruções que eu gostaria muito de ver cumpridas. A Sra. Packington voltou para casa num estado de alegria antecipada. O Sr. Packington voltou com ar de­fensivo, pronto para discutir a situação, caso a cena da manhã fosse reaberta. Ficou aliviado, entretanto, ao ver que a mulher não estava com espírito combativo. Ela parecia estranhamente pensativa. George ficou ouvindo rádio, imaginando se aquela pobre e querida Nancy consentiria que ele lhe desse um casaco de peles. Ele sabia que ela era muito orgulhosa. Não queria ofendê-la. Apesar disso, ela se queixara do frio. Aquele casaco de lã era tão ordinário; nem a pro­tegia do frio. Talvez ele conseguisse convencê-la, talvez… Breve eles poderiam novamente sair juntos à noite. Era um prazer sair com uma moça assim e levá-la a um dos restaurantes da moda. Ele se sentia invejado por muitos rapazes. Ela era extraordinariamente bonita. E gostava dele. Para ela — como já lhe dissera — ele não era nem um pouquinho velho. Levantou os olhos e percebeu o olhar da mulher. Sentiu-se repentinamente culpado e isto o aborreceu. Que mulher intolerante era Maria! Negava-lhe até um pinguinho de felicidade. Desligou o rádio e foi para a cama. A Sra. Packington recebeu duas cartas inesperadas, na manhã seguinte. Uma delas era um impresso confir­mando uma hora marcada num conhecido especialista de beleza. A segunda marcava uma hora com uma costu­reira. A terceira era do Sr. Parker Pyne, solicitando o prazer de sua companhia para um almoço no Ritz na­quele dia. O Sr. Packington avisou que talvez não pudesse vir jantar em casa, pois tinha que ver um homem de ne­gócios. A Sra. Packington abanou a cabeça distraidamente, e ele saiu de casa satisfeito por ter escapado da tempestade. O especialista de beleza foi admirável:

— Mas que negligência! Por quê? Por que, Madame? Há muito tem­po que a senhora devia ter feito alguma coisa. Feliz­mente, ainda não é tarde! Uma porção de coisas foram aplicadas sobre o seu rosto; ele foi massageado, apertado e tratado a vapor. Aplicaram-lhe uma máscara de lama. Aplicaram-lhe cremes diversos. Passaram pó-de-arroz. E depois houve uma série de retoques finais. Por fim lhe deram um espelho. Acho que estou mes­mo parecendo mais moça, pensou ela. A hora com a costureira foi igualmente excitante. Saiu de lá se sentindo elegante, atualizada, no rigor da moda. A uma e meia da tarde, a Sra. Packington chegava ao Ritz. O Sr. Parker Pyne, impecàvelmente vestido, e envolto numa aura de serena confiança, estava espe­rando por ela.

—Encantadora — disse, com um olho experiente a examiná-la da cabeça aos pés.— Me antecipei e lhe en­comendei um White Lady. A Sra. Packington não tinha o hábito de tomar co­quetéis, mas não disse nada. Enquanto bebia cautelosa­mente o excitante líquido, ouvia o seu paciente instrutor.

— Seu marido, Sra. Packington — disse o Sr. Pyne, —vai ser obrigado a ficar em guarda. Compreendeu? Se interessar. Para ajudá-la, vou apresentá-la a um jo­vem amigo meu. A senhora vai almoçar com ele hoje. Neste instante entrou um rapaz, olhando de um lado para outro. Ao avistar o Sr. Parker Pyne, caminhou em sua direção, com elegância.

— O Sr. Claude Luttrell, Sra. Packington.O Sr. Claude Luttrell talvez ainda não tivesse trinta anos. Era atraente, desembaraçado, impecàvelmente ves­tido, extremamente bonito.

— Muito prazer em conhecê-la — murmurou. Três minutos depois, a Sra. Packington estava fren­te a frente com seu novo mentor, numa pequena mesa para dois. Estava um pouco tímida no início, mas o Sr. Lut­trell logo a colocou à vontade. Ele conhecia Paris muito bem e passara um bom tempo na Riviera. Perguntou à Sra. Packington se ela gostava de dançar. Ela disse que gostava, mas quase não saía para dançar, atualmente, porque o Sr. Packington não gostava muito de sair de noite.

— Mas ele não pode ser tão cruel assim, a ponto de prendê-la em casa — disse Claude Luttrell, sorrindo e mostrando uma deslumbrante fileira de dentes. — As mulheres não devem mais tolerar o ciúme masculino, em nossos dias. A Sra. Packington quase disse que o problema não era o ciúme, mas as palavras não saíram. Apesar de tudo, a idéia era agradável. Claude Luttrell falou superficialmente de boates. Fi­cou combinado que na noite seguinte a Sra. Packington e o Sr. Luttrell iriam conhecer o popular Arcanjo Menor.A Sra. Packington se sentia um pouco nervosa ante a perspectiva de anunciar o fato ao marido. Imaginou que George ia achar muito estranho e talvez ridículo. Mas teve sorte. Estava muito nervosa para falar com ele durante o café da manhã, e lá pelas duas horas da tarde um telefonema lhe informou que o Sr. Packington ia jan­tar na cidade.A noitada foi um sucesso. A Sra. Packington dan­çava muito bem quando era moça, e, sob a sábia orien­tação de Claude Luttrell, não demorou a aprender os passos modernos. Ele lhe deu os parabéns pelo vestido e pelo penteado. (Tinham-lhe marcado uma hora na­quela manhã com um dos cabeleireiros da moda). Ao se despedir, ele beijou a sua mão de uma maneira eletrizante. Há muitos anos que a Sra. Packington não passa­va uma noite tão divertida.Seguiram-se dez dias fantásticos. A Sra. Packington almoçava, lanchava, dançava tango, jantava, valsava e ceava. Ficou sabendo tudo sobre a triste infância de Claude Luttrell. Conheceu as desafortunadas circunstân­cias nas quais o pai perdera todo o seu dinheiro. Ouviu a história do trágico romance que lhe amargurava os sentimentos em relação às mulheres em geral.No décimo primeiro dia, eles foram dançar no Almi­rante Vermelho. A Sra. Packington viu seu marido antes que ele a visse. George estava com a moça do escritório. Os dois casais estavam dançando.

— Olá, George — disse baixinho a Sra. Packington, quando passou por ele. Foi com certa satisfação que ela viu o rosto de seu marido ficar primeiro vermelho e depois roxo de espanto. Além do espanto, havia uma expressão de quem descobre um erro. A Sra. Packington se sentiu divertidamente dona da situação. Coitado do George! De volta à sua mesa, ela se pôs a observá-lo. Como estava gordo, como estava ca­reca, como cambaleava! Ele dançava como há uns vinte anos atrás. Coitado, que força estava fazendo para pa­recer jovem! E aquela pobre moça que dançava com ele e fingia que estava gostando. Ela agora parecia muito chateada, o rosto por cima do ombro dele para que ele não pudesse vê-lo.A Sra. Packington pensou muito satisfeita que a sua situação era bem mais invejável. Olhou de relance para o maravilhoso Claude, agora taticamente em silêncio. Como ele a compreendia bem! Nunca discordava dela — os maridos sempre discordam depois de alguns anos. Tornou a olhar para ele. Seus olhos se encontraram. Ele sorriu; seus lindos olhos escuros, tão melancólicos, tão românticos, olharam ternamente dentro dos dela.

— Vamos dançar outra vez? — murmurou ele. Dançaram novamente. Era o paraíso. Ela sentia o olhar apoplético de George a segui-los. A idéia tinha sido dela, ela se lembrava, de provocar ciú­mes em George. Há tanto tempo! Mas agora ela não queria mais despertar os ciúmes de George. Poderia abor­recê-lo. Por que aborrecê-lo, afinal de contas? Coitadi­nho! Todo mundo estava tão feliz…O Sr. Packington já estava em casa há uma hora quando a Sra. Packington entrou. Ele parecia confuso e inseguro.

— Hum — resmungou. — Afinal você chegou.

A Sra. Packington atirou longe um xale que lhe ti­nha custado quarenta guinéus, naquela mesma manhã.

— É — disse sorrindo, — cheguei.

George tossiu — Er… foi estranho encontrar você.

— Foi mesmo, não é? — disse a Sra. Packington.

— Eu… bem, eu pensei que seria um gesto delicado da minha parte levar aquela moça a algum lugar. Ela tem tido tantos problemas em casa. Eu pensei. .. bem, delicadeza, você compreende. A Sra. Packington fez que sim com a cabeça. Pobre George — saltitando e se entusiasmando e tão satisfeito consigo mesmo.

— Quem era aquele camarada que estava com você? Eu não o conheço, conheço?— Chama-se Luttrell. Claude Luttrell.— Como foi que você o conheceu?

— Oh, alguém me apresentou — disse a Sra. Packington vagamente.

— É esquisito você sair dançando por aí… na sua idade. Não vá ficar ridícula, minha querida. A Sra. Packington sorriu. Ela estava se sentindo muito satisfeita, com o mundo inteiro paria dar a res­posta óbvia. — Uma mudança é sempre agradável — disse amistosamente.— Você precisa ter cuidado, sabe? Há uma porção destes dançarinos profissionais por aí. Mulheres de meia-idade às vezes fazem papéis ridículos. Estou só lhe avi­sando, minha cara. Não gostaria de ver você fazendo o que não deve.

— Acho muito bom o exercício — disse a Sra. Pack­ington.

— Hum. .. bom…— Espero que você também ache — disse simpática a Sra. Packington. — O importante mesmo é a gente se sentir feliz, não é? Me lembro que você me disse isso há uns dez dias.O marido olhou rapidamente para ela, mas não ha­via nem uma ponta de sarcasmo na sua expressão. Ela bocejou.

— Vou me deitar. Antes que eu me esqueça, George, tenho sido horrivelmente extravagante neste últimos dias. Algumas contas terríveis vão chegar. Você não se importa, não é?

— Contas? — perguntou o Sr. Packington.

— É. Vestidos. E massagens. E tratamento para os cabelos. Horrivelmente extravagante… mas eu sei que você não se importa…Ela subiu as escadas. O Sr. Packington ficou de boca aberta. Maria tinha sido maravilhosamente gentil em re­lação ao que acontecera aquela noite; parecia não ter dado a menor importância. Mas era uma pena que de re­pente ela começasse a gastar dinheiro. Maria — um mo­delo de economia! Mulheres! George Packington balançou a cabeça. As confusões em que os irmãos daquela garota se tinham metido nos últimos dias… Bem, ele continuava disposto a ajudá-la. Apesar de tudo… bolas! As coisas já não estavam indo assim tão bem lá pela cidade. Suspirando, o Sr. Packington subiu as escadas de­vagar. Às vezes, só mais tarde prestamos atenção a pala­vras que na hora não pareceram importantes. Só na ma­nha seguinte certas palavras que o Sr. Packington dis­se entraram realmente na consciência de sua mulher. Dançarinos profissionais; mulheres de meia-idade; cair no ridículo. A Sra. Packington era uma mulher corajosa. Sen­tou-se e enfrentou os fatos. Um gigolô. Ela sempre leu histórias de gigolôs nos jornais. Leu também a respeito de loucuras cometidas por mulheres de meia-idade. Claude seria um gigolô? Ela calculou que sim. Mas então como é que os gigolôs eram sempre pagos e era Claude quem pagava todas as despesas? Sim, mas era o Sr. Parker Pyne quem pagava, não Claude — ou melhor, eram os seus próprios duzentos guinéus. Seria ela uma estúpida mulher de meia-idade? Será que Claude Luttrell ria dela pelas costas? A este pensa­mento seu rosto ficou vermelho. Bem, e se fosse mesmo? Claude era um gigolô. Ela era uma ridícula mulher de meia-idade. Logo ela devia lhe dar um presente. Uma cigarreira de ouro, qualquer coisa no gênero. Um impulso excêntrico levou-a até o Asprey’s. Es­colheu e comprou uma cigarreira. Ia se encontrar com Claude para almoçar no Claridge. Quando tomavam o café ela mexeu na bolsa.

— Um presentinho — murmurou. Ele olhou para ela, franziu as sobrancelhas.

— Para mim?

— É. Eu… espero que você goste. Ele pegou a cigarreira e a empurrou violentamente para o outro lado da mesa.

— Por que você me deu isso? Não quero. Leve de volta. Leve de volta! — estava zan­gado. Seus olhos escuros faiscavam.

— Desculpe — murmurou ela, e a colocou de volta na bolsa. Houve um certo constrangimento entre os dois na­quele dia.

Na manhã seguinte ele telefonou — Preciso ver vo­cê. Posso ir à sua casa hoje à tarde? Ela marcou para as três da tarde. Claude chegou muito pálido, muito tenso. Cumpri­mentaram-se. O constrangimento se tornou mais evi­dente.

De repente ele se pôs de pé e ficou em frente dela — O que é que você pensa que eu sou? Foi isso que eu vim lhe perguntar. Nós temos sido amigos, não é mesmo? Sim, amigos… Mas apesar de tudo você pensa que eu sou… é, é isso mesmo, um gigolô. Uma criatura que vive às custas de mulheres. É isso que você pensa, não é?

— Não, não! Ele interrompeu seu protesto. Seu rosto estava ainda mais pálido — É isso mesmo que você pensa! Bom, é ver­dade. Foi isso que eu vim dizer. É verdade! Eu recebi or­dens para sair com você, para lhe fazer a corte, fazer vo­cê esquecer seu marido. É este o meu emprego. Um em­prego abjeto, não é?

— Por que você me contou isso tudo? — perguntou ela.

— Porque eu estou cheio dessa história toda. Não posso mais continuar. Não com você. Você é diferente. Você é o tipo da mulher em quem eu pude confiar, acre­ditar, gostar. Você vai pensar que eu estou dizendo isso porque é parte do negócio — aproximou-se dela.

— Vou lhe provar que não é verdade. Vou-me embora por sua causa. Vou tentar ser um homem de verdade, em vez da criatura repulsiva que fui até hoje. De repente ele a tomou nos braços. Seus lábios se apertaram contra os dela. Soltou-a e se afastou um pouco.

— Adeus. Sempre fui abjeto. Sempre. Mas juro que de hoje em diante vai ser diferente. Se lembra que você falou uma vez que gostava de ler os Anúncios Pessoais? No dia de hoje, todos os anos, você vai encontrar um re­cado meu dizendo que eu sempre me lembro de você e que continuo no bom caminho. Você vai ver então o quanto significou para mim. Mais uma coisa. Não quero nada de você. Mas quero que guarde alguma coisa minha — tirou do dedo um anel de ouro.

— Foi de minha mãe. Quero que você fique com ele. Agora, adeus…George Packington voltou cedo para casa. Encon­trou a mulher sentada em frente da lareira com um olhar diferente. Falou gentilmente com ele, mas parecia es­tranha e alheia à sua presença.

— Olhe aqui, Maria — começou ele, aos arrancos. — Aquela moça.

— Sim, querido?— Eu… eu nunca quis aborrecer você, sabe. Com ela. Não há nada.

— Eu sei. Fui uma boba. Pode vê-la quantas vezes quiser, se isto faz você ficar feliz. Tais palavras deviam ter alegrado George Packing­ton, é lógico. Por mais estranho que possa parecer, elas o aborreceram. Como podia ele se divertir saindo com a moça, se a sua própria mulher praticamente o obrigava a isto? Francamente isso nem era decente! Toda aquela sensação de poder, de homem forte que brincava com fogo, se desvaneceu e morreu melancòlicamente. De re­pente, George Packington se sentiu cansado, esvaziado. A garota era muito esperta…

— Nós podíamos sair um pouco, se você quisesse, Maria — sugeriu timidamente.— Não se preocupe comigo. Estou muito feliz.— Mas eu gostaria de levar você para passear; po­díamos ir para a Riviera. A Sra. Packington sorriu levemente. Pobre George… Ela se orgulhava dele. Era um ve­lhinho tão terno! Não havia na vida um segredo tão lin­do quanto o dela. Ela sorriu ainda com mais ternura.

— Seria ótimo, querido — disse.

O Sr. Parker Pyne estava falando com a Srta. Lemon — Despesas com os divertimentos?— Cento e duas libras, quatorze shillings e seis pence. A porta abriu e entrou Claude Luttrell. Estava com um ar amuado.

— Bom dia, Claude — disse Parker Pyne. — Foi tudo bem?

— Acho que sim.— O anel? Qual foi o nome que você mandou gra­var, por falar nisso?— Matilda — disse Claude taciturno. — 1899.

— Ótimo. E as palavras do anúncio?— Continuo bem. Ainda me lembro de você. Claude.— Tome nota, por favor, Srta. Lemon. Na coluna dos Anúncios Pessoais. No dia três de novembro… deixe ver… despesas de cento e duas libras, quatorze shillings e seis pence. Por dez anos, acho. Isto nos deixa um lucro liquido de noventa e duas libras, dois shillings e quatro pence. Correto. Perfeitamente correto. A secretária saiu.— Olhe aqui — explodiu Claude. — Não gosto disso. É um jogo sujo.

— Meu rapazinho!— Jogo sujo. Uma mulher decente… uma mulher direita. Contar todas estas mentiras. Enganá-la com es­tas histórias sentimentais, que horror. Isso me deixou doente! Parker Pyne endireitou os óculos e olhou para Clau­de com uma espécie de interesse científico.

— Meu caro — disse secamente, — não me recordo de nenhum mo­mento em que a sua consciência o tenha preocupado em toda a sua… ahn… notória carreira… Seus negócios na Riviera foram particularmente inescrupulosos, e a sua exploração da Sra. Hattie West, mulher do Rei dos Pepinos da Califórnia, foi notável, pelo instinto merce­nário e empedernido que você demonstrou.

— Bem, estou começando a me sentir diferente — resmungou Claude. — Não é direito… esse tipo de jogo.

Parker Pyne falou num tom de voz como o do pro­fessor que repreende o aluno favorito — Claude, meu caro, você praticou uma boa ação. Deu a uma mulher in­feliz o que todas as mulheres precisam — um romance. Uma mulher pode destruir uma paixão e não aproveitar nada de bom dela, mas um romance pode ser guardado com carinho e relembrado por muitos anos. Eu conheço a natureza humana, meu jovem, e posso lhe garantir que uma mulher alimentará um romance por muitos anos — pigarreou. — Cumprimos com pleno êxito nossa missão com a Sra. Packington.

— Bem — murmurou Claude. — Mas isso não me agrada — e deixou a sala.

Parker Pyne apanhou um fichário novo numa ga­veta. Escreveu: Curiosos vestígios de consciência num gigolô empedernido. Nota: acompanhar o desenvolvi­mento.

 

 

 

 

 

Rainha do Crime: Comemorando 100 anos de histórias de Agatha Christie

O primeiro romance de Agatha Christie que apresentou o querido detetive Hercule Poirot ao mundo foi publicado há 100 anos, em 1920. Esse romance de estreia, The Mysterious Affair At Styles, foi parcialmente o resultado de um desafio de sua irmã que a desafiou a escrever uma boa história de detetive – e ela escreveu, por muitas décadas até sua morte em 1976.

Nascida em Torquay, na Inglaterra, em 1890, Christie se tornou a romancista mais vendida de todos os tempos.

Conhecida como a Rainha do Crime, seus 66 romances e 14 coleções de contos – incluindo traduções – venderam mais de dois bilhões de cópias em todo o mundo. Seu trabalho foi traduzido para mais de 100 idiomas.

Ao celebrarmos 100 anos de histórias de Agatha Christie este ano, relembramos o primeiro romance de detetive que começou tudo, sua peça mais longa, The Mousetrap, um livro de Hercule Poirot (da escritora de ficção britânica Sophie Hannah). em agosto e um filme que (com sorte) chegará aos cinemas perto de você em outubro.

Os fãs podem acompanhar as comemorações dos 100 anos das histórias de Agatha Christie em agathachristie.com. Suas páginas oficiais do Facebook e Instagram também são preenchidas com atividades regulares.

Exigências da vida moderna

Dizem que todos os dias você deve comer uma maçã por causa do ferro. E uma banana pelo potássio. E também uma laranja pela vitamina C.
Uma xícara de chá verde sem açúcar para prevenir a diabetes.
Todos os dias deve-se tomar ao menos dois litros de água. E uriná-los, o que consome o dobro do tempo.
Todos os dias deve-se tomar um Yakult pelos lactobacilos (que ninguém sabe bem o que é, mas que aos bilhões, ajudam a digestão).
Cada dia uma Aspirina, previne infarto.
Uma taça de vinho tinto também. Uma de vinho branco estabiliza o sistema nervoso.
Um copo de cerveja, para… não lembro bem para o que, mas faz bem.
O benefício adicional é que se você tomar tudo isso ao mesmo tempo e tiver um derrame, nem vai perceber.
Todos os dias deve-se comer fibra. Muita, muitíssima fibra. Fibra suficiente para fazer um pulôver.
Você deve fazer entre quatro e seis refeições leves diariamente.
E nunca se esqueça de mastigar pelo menos cem vezes cada garfada. Só para comer, serão cerca de cinco horas do dia… E não esqueça de escovar os dentes depois de comer.
Ou seja, você tem que escovar os dentes depois da maçã, da banana, da laranja, das seis refeições e enquanto tiver dentes, passar fio dental, massagear a gengiva, escovar a língua e bochechar com Plax.
Melhor, inclusive, ampliar o banheiro e aproveitar para colocar um equipamento de som, porque entre a água, a fibra e os dentes, você vai passar ali várias horas por dia.
Há que se dormir oito horas por noite e trabalhar outras oito por dia, mais as cinco comendo são vinte e uma. Sobram três, desde que você não pegue trânsito.
As estatísticas comprovam que assistimos três horas de TV por dia. Menos você, porque todos os dias você vai caminhar ao menos meia hora (por experiência própria, após quinze minutos dê meia volta e comece a voltar, ou a meia hora vira uma).
E você deve cuidar das amizades, porque são como uma planta: devem ser regadas diariamente, o que me faz pensar em quem vai cuidar delas quando eu estiver viajando.
Deve-se estar bem informado também, lendo dois ou três jornais por dia para comparar as informações.
Ah! E o sexo! Todos os dias, tomando o cuidado de não se cair na rotina. Há que ser criativo, inovador para renovar a sedução. Isso leva tempo – e nem estou falando de sexo tântrico.
Também precisa sobrar tempo para varrer, passar, lavar roupa, pratos e espero que você não tenha um bichinho de estimação.
Na minha conta são 29 horas por dia. A única solução que me ocorre é fazer várias dessas coisas ao mesmo tempo!
Por exemplo, tomar banho frio com a boca aberta, assim você toma água e escova os dentes.
Chame os amigos junto com os seus pais.
Beba o vinho, coma a maçã e a banana junto com a sua mulher… na sua cama.
Ainda bem que somos crescidinhos, senão ainda teria um Danoninho e se sobrarem 5 minutos, uma colherada de leite de magnésio.
Agora tenho que ir.
É o meio do dia, e depois da cerveja, do vinho e da maçã, tenho que ir ao banheiro. E já que vou, levo um jornal… Tchau!
Viva a vida com bom humor!!!
Luis Fernando Verissimo