O sumiço do cientista

Agatha Christie
Na minha opinião, mesmo após o júri ter retirado as acusações contra
Robert Grant, ou Biggs, do assassinato de Jonathan Whalley, não creio que o
inspetor Meadows tenha se convencido plenamente da inocência dele. Para sua
mente lógica, o caso construído por ele contra Grant (a ficha policial, o jade
roubado, as botas que se encaixavam de modo perfeito nas pegadas) era
completo demais para ser refutado assim tão facilmente. Mas Poirot, forçado
(muito contra sua natureza) a apresentar provas, convenceu o júri. Duas
testemunhas afirmaram ter visto uma carroça de açougueiro indo ao chalé
naquela manhã de segunda-feira, e o açougueiro local afirmou que sua carroça
só passava na vila às quartas e sextas.
Ao ser interrogada, uma senhora inclusive lembrou ter visto o açougueiro
saindo do chalé, mas não foi capaz de fazer uma descrição útil. A única
impressão que ele parece ter deixado nela foi a de um homem de barba raspada e
estatura mediana, com a exata aparência de um açougueiro. Ao ouvir essa
descrição, Poirot deu de ombros filosoficamente.
– É como eu lhe digo, Hastings – disse-me ele, ao terminar o julgamento. –
É um ator, essa figura. Não se disfarça com barba falsa e óculos escuros: altera
as próprias feições. Mas isso é o de menos. Naquele determinado instante, ele é
o homem que deseja ser. Ele encarna o personagem.
Sem dúvida, eu era forçado a admitir: o homem que nos visitara de Hanwell
se encaixava feito luva na ideia que eu fazia de um atendente de hospício.
Nunca, nem por um momento, sonhei em duvidar da sua autenticidade.
Tudo era um tanto desanimador, e nossa experiência em Dartmoor não
parecia ter nos ajudado em nada. Comentei isso com Poirot, mas ele não admitiu
nossa falta de evolução.
– Estamos avançando – disse ele –, estamos avançando. A cada contato
com esse homem, aprendemos um pouco de sua mente e de seus métodos. Sobre
nós e nossos planos ele não sabe nada.
– Parece que nesse pormenor, Poirot – protestei –, ele e eu estamos no
mesmo barco. Pelo que estou vendo, você não tem plano nenhum a não ser ficar
sentado esperando ele fazer uma jogada.
Poirot sorriu.
– Mon ami, você não muda. Sempre o mesmo Hastings, pronto para dar
uma alfinetada. Talvez – acrescentou, ao soar uma batida na porta – esta seja sua
chance. Pode ser que nosso amigo entre.
E riu ao ver minha decepção quando o inspetor Japp e outro homem
entraram na sala.
– Boa noite, moosior – saudou o inspetor. – Com sua permissão, gostaria de
apresentar o capitão Kent, do serviço secreto norte-americano.
O capitão Kent era um ianque alto e magro, com rosto singularmente
inexpressivo, como que esculpido em madeira.
– Prazer em conhecê-los, cavalheiros – falou em voz baixa, enquanto
trocava apertos de mãos às sacudidas.
Poirot jogou outra acha de lenha no fogo e puxou mais duas poltronas para
perto. Eu trouxe copos e uísque com soda. O capitão tomou um gole generoso e
elogiou:
– A legislação no seu país ainda é legítima.
– Agora vamos ao que interessa – disse Japp. – O moosior Poirot aqui me
pediu uma coisa. Ele estava interessado em certo assunto envolvendo o nome
dos Quatro Grandes e me pediu que o mantivesse informado se a qualquer
momento eu me deparasse com alguma menção sobre isso em minhas missões
oficiais. Não dei muita importância ao fato, mas não esqueci do que ele me
disse. Quando ouvi do capitão um relato muito curioso, eu disse na hora:
“Vamos falar com moosior Poirot”.
Poirot lançou um olhar para o capitão Kent, e o americano tomou a palavra.
– Talvez o senhor tenha lido em algum lugar, sr. Poirot, que vários
torpedeiros e destróieres foram afundados ao se chocarem contra recifes ao largo
da costa norte-americana. Foi pouco após o terremoto no Japão. A explicação
oficial foi a de que o desastre havia sido o resultado de um tsunami. Há poucos
dias, numa batida foram presos certos fora-da-lei e criminosos armados. Estavam
de posse de papéis que nos fizeram ver a questão com outros olhos.
Mencionavam uma organização chamada os “Quatro Grandes” e davam uma
descrição superficial de uma potente instalação wireless… uma concentração de
energia sem fio nunca antes vista ou tentada, capaz de concentrar raios de grande
intensidade sobre um determinado local. Obviamente, as alegações feitas sobre a
invenção pareciam absurdas, mas eu as levei ao quartel-general para checar se
eram verídicas, e um de nossos eminentes cientistas ocupou-se do assunto. Então
ele descobriu que um pesquisador britânico lera um artigo sobre o tópico perante
a comunidade científica. Até onde se sabe, os colegas não se impressionaram
muito, acharam forçado e fantasioso, mas o cientista permaneceu irredutível e
declarou que estava prestes a alcançar o sucesso em seus experimentos.
– Eh bien? – pediu Poirot, interessado.
– Sugeriram que eu viesse até aqui para ter um colóquio com esse
cavalheiro. Por sinal, um camarada bem novo, Halliday, seu nome. É a maior
autoridade no assunto. Eu deveria perguntar a ele se a operação preconizada era
ou não possível.
– E era? – indaguei, ansioso.
– É justamente isso que não sei. Não me encontrei com o sr. Halliday… e
acho que não vou conseguir encontrá-lo, pelo que estou vendo.
– A verdade é que – resumiu Japp – Halliday desapareceu.
– Quando?
– Há dois meses.
– O desaparecimento dele foi registrado?
– Claro que sim. A esposa veio até nós, desesperada. Fizemos o que estava
a nosso alcance, mas eu sabia que não ia adiantar nada.
– Por que não?
– Nunca adianta… quando um homem desaparece dessa forma. – Japp deu
uma piscadela.
– De que forma?
– Paris.
– Então Halliday sumiu em Paris?
– Sim. Foi até lá por conta de um trabalho científico… pelo menos foi o que
ele disse. É lógico, ele teria que dizer algo do tipo. Mas os senhores sabem o que
significa quando um homem some por lá. Ou é obra dos apaches parisienses (e
então é o fim) ou é sumiço espontâneo (e essa hipótese é a mais provável, posso
garantir). Sabe, aquela história da Paris festeira e tudo o mais. Cansou da vida
doméstica. Halliday e a mulher dele tiveram uma rusga antes de ele partir, o que
ajuda a tornar o caso ainda mais claro.
– Imagino – disse Poirot, pensativo.
O americano o mirava com curiosidade.
– Diga-me, senhor – falou ele, arrastando as palavras –, que história é essa
de Quatro Grandes?
– Os Quatro Grandes – respondeu Poirot – são uma organização
internacional cujo líder é um chinês. É conhecido como o Número Um. O
Número Dois é um americano. O Número Três é uma mulher francesa. O
Número Quatro, o “destruidor”, é um inglês.
– Uma francesa, hein? – assobiou o americano. – E Halliday sumiu na
França. Talvez haja uma conexão. Qual o nome dela?
– Não sei. Não sei nada sobre ela.
– Mas é uma forte possibilidade, não? – sugeriu o outro.
Poirot assentiu com a cabeça, enquanto dispunha os copos em fileira na
bandeja. Sua paixão por método estava maior do que nunca.
– Que ideia está por trás de afundar aqueles barcos? Os Quatro Grandes
estão a serviço da Alemanha?
– Os Quatro Grandes estão a serviço deles próprios… e de ninguém mais,
monsieur le Capitaine. O objetivo deles é dominar o mundo.
O americano caiu na gargalhada, mas cessou ao ver a expressão séria de
Poirot.
– Você ri, monsieur – disse Poirot, apontando o dedo para ele. – Não
raciocina… não usa as pequenas células cinzentas do cérebro. Que pessoas são
essas que destroem parte de sua frota marítima apenas como demonstração de
poder? Pois foi isso que aconteceu, monsieur: o teste da nova força de atração
magnética que caiu nas mãos deles.
– Não brinque, moosior – disse Japp, bem-humorado. – Já li sobre
superfacínoras muitas vezes, mas nunca havia topado com eles. Bom, os
senhores escutaram a história do capitão Kent. Posso ajudá-los em mais alguma
coisa?
– Sim, meu bom amigo. Pode nos dar o endereço da sra. Halliday… e
também algumas poucas palavras de apresentação, se não for pedir demais.
Assim, no dia seguinte rumávamos a Chetwynd Lodge, perto da aldeia de
Chobham, em Surrey.
A sra. Halliday – alta, esbelta, nervosa e agitada – recebeu-nos
prontamente. Estava ao lado da filha, uma bonita menina de cinco anos.
Poirot explicou o propósito de nossa visita.
– Ah! Sr. Poirot, isso me deixa tão contente e agradecida. Já ouvi falar do
senhor, é claro. O senhor não vai agir como aquele pessoal da Scotland Yard, que
não nos dá ouvidos nem tenta nos entender. E a polícia francesa não é melhor…
muito pelo contrário, aliás. Todos estão convencidos de que meu marido fugiu
com outra mulher. Mas ele não era desse tipo de homem! Só pensava em
trabalhar. A maior parte de nossas brigas era por causa disso. Ele dava mais
importância para o trabalho do que para mim.
– Ingleses… são assim mesmo – disse Poirot, consolador. – Se não é o
trabalho, são os jogos, os esportes. Todas essas coisas eles levam au grand
sérieux. Agora, madame, nos reconstitua, passo a passo, do modo mais exato e
detalhado que conseguir, as exatas circunstâncias do desaparecimento de seu
marido.
– Meu marido foi a Paris na quinta-feira dia 20 de julho. Lá ele ia se
encontrar com várias pessoas ligadas ao trabalho dele, entre elas a madame
Olivier.
Poirot fez sim com a cabeça à menção da famosa química francesa, que
ofuscara até madame Curie no brilhantismo de suas realizações. Ela havia sido
condecorada pelo governo francês e era uma das personalidades mais
proeminentes da atualidade.
– Chegou lá à noitinha e foi direto ao Hotel Castiglione, na Rue de
Castiglione. Na manhã seguinte, tinha uma hora marcada com o professor
Bourgoneau, à qual ele compareceu. Agiu de modo normal e agradável. Os dois
tiveram uma conversa interessante e ficou combinado que ele voltaria no dia
seguinte para assistir a alguns experimentos no laboratório do professor. Ele
almoçou sozinho no Café Royal, deu uma caminhada no Bois e então visitou
madame Olivier na casa dela em Passy. Lá também suas atitudes foram
perfeitamente normais. Foi embora perto das seis. Onde jantou não se sabe,
provavelmente sozinho num restaurante qualquer. Voltou ao hotel perto das onze
e subiu direto ao quarto, após perguntar se havia chegado alguma mensagem
para ele. Na manhã seguinte, saiu do hotel e não foi mais avistado.
– A que horas ele saiu do hotel? Na hora em que teria normalmente saído
para cumprir seu compromisso no laboratório do professor Bourgoneau?
– Não sabemos. Não foi visto deixando o hotel. Mas nenhum petit déjeuner
lhe foi servido, o que parece indicar que saiu cedo.
– Ou, na verdade, talvez ele pudesse ter saído de novo na noite anterior?
– Acho que não. A cama estava desfeita, e o porteiro da noite teria
lembrado se alguém tivesse saído de madrugada.
– Bem observado, minha senhora. Podemos considerar, então, que ele saiu
cedo na manhã seguinte… de certa maneira isso é tranquilizador. Não é provável
ele ter sofrido um ataque de delinquentes juvenis numa hora dessas. A propósito,
ele deixou toda a bagagem para trás?
A sra. Halliday pareceu bastante relutante em responder, mas enfim disse:
– Não… deve ter levado junto uma valise.
– Hum… – disse Poirot, pensativo. – Me pergunto aonde ele foi naquela
noite. Saber isso nos ajudaria um bocado. Com quem será que ele se encontrou?
Aí que reside o mistério. Madame, de minha parte, não tenho a necessidade de
aceitar a perspectiva da polícia; com eles tudo se resolve no prisma “Cherchez la
femme”. No entanto, é evidente que algo aconteceu naquela noite e alterou os
planos de seu marido. A senhora disse que ele perguntou por mensagens quando
retornou ao hotel. Ele recebeu alguma?
– Apenas uma. Deve ter sido a que eu escrevi a ele no dia em que viajou.
Poirot permaneceu imerso em pensamentos por um minuto inteiro, então
ergueu-se de repente.
– Bem, madame, a solução do mistério está em Paris. Só há um jeito de
encontrá-la: ir a Paris neste exato instante.
– Já faz muito tempo, monsieur.
– Sim. Mas é lá que devemos procurar.
Ele virou-se para deixar a sala, mas parou com a mão na porta.
– Diga-me, madame, não lembra ter escutado seu marido mencionar a
expressão “Os Quatro Grandes”?
– Os Quatro Grandes – repetiu ela, pensativa. – Não… não lembro não

A importância de um pernil de cordeiro

Agatha Christie
O inspetor tirou uma chave do bolso e abriu a porta de Granite Bungalow.
O dia estivera ensolarado e seco, por isso era improvável que nossos sapatos
deixassem quaisquer pegadas; entretanto, antes de entrar, limpamos com cuidado
os sapatos no capacho.
Uma mulher apareceu da penumbra e falou com o inspetor, que se virou na
direção dela. Então, falou sobre o ombro:
– Dê uma boa olhada por aí, sr. Poirot, e veja tudo que lhe aprouver. Em
dez minutos estou de volta. A propósito, aqui está a bota de Grant. Trouxe junto
comigo para os senhores compararem com as marcas.
Entramos na sala de estar, e o som dos passos do inspetor sumiu lá fora. De
imediato, Ingles atraiu-se por algumas raridades chinesas na mesa de canto e foi
examiná-las. Parecia não ter interesse nos afazeres de Poirot. Eu, por outro lado,
observei-o com intenso interesse. O piso estava coberto com uma camada de
linóleo verde-escuro, ideal para revelar pegadas. Uma porta na extremidade
oposta dava para a pequena cozinha. Dali, outra porta conduzia à copa (onde
ficava a porta dos fundos) e outra ao quarto antes ocupado por Robert Grant.
Tendo examinado o chão, Poirot comentou em voz baixa num monólogo fluente:
– O corpo estava aqui; esta grande mancha escura e os respingos ao redor
demarcam o local. Observe: aqui, sinais de pantufas, ali, vestígios de botas
tamanho 41, mas tudo muito confuso. Então, dois pares de rastros indo e
voltando entre a sala e a cozinha. Seja lá quem for o assassino, veio por esse
caminho. Tem a bota aí, Hastings? Passe para cá.
Com minúcia, ele comparou a bota com as pegadas.
– Sim, dois rastros feitos pelo mesmo homem, Robert Grant. Entrou por ali,
matou o velho e retornou à cozinha. Pisou no sangue: vê as marcas que ele
deixou ao sair? Nada para conferir na cozinha… a vila toda já andou por ali. Foi
ao quarto dele… não, antes voltou à cena do crime… teria sido para pegar as
estatuetas de jade? Ou teria esquecido algo que pudesse incriminá-lo?
– Talvez ele tenha matado o velho na segunda vez que entrou? – sugeri.
– Mais non! Preste atenção: numa dessas pegadas de saída manchadas de
sangue há a sobreposição de uma pegada de entrada. Pergunto-me por que ele
voltou… será que só depois ele lembrou das estatuetas de jade? É tudo tão
ridículo… tão estúpido.
– Bom, ele se incriminou de um jeito que não deixa dúvidas.
– N’est-ce pas? Escute, Hastings, isso não faz sentido. Ofende minhas
pequenas células cinzentas. Vamos até o quarto dele… ah, sim: tem uma mancha
de sangue na moldura da porta e só um rastro de pegadas… ensanguentadas. As
pegadas de Robert Grant, só elas, perto do corpo… Robert Grant sendo o único
homem que estava nas redondezas. Sim, deve ser isso.
– Mas e quanto à cozinheira? – perguntei de repente. – Ela esteve sozinha
na casa depois que Grant saiu para buscar leite. Ela poderia ter cometido o crime
e então saído. Não deixou pegadas, pois não saiu de casa.
– Muito bem, Hastings. Fiquei me perguntando se você ia pensar nessa
hipótese. Eu já tinha pensado nela e a descartado. Betsy Andrews é uma mulher
do povoado, bem conhecida por aqui. Não pode ter conexão alguma com os
Quatro Grandes. Além disso, ao que tudo indica, o velho Whalley era um
camarada forte. Este é um trabalho masculino… não feminino.
– Imagino se não é possível que os Quatro Grandes tenham usado uma
engenhoca diabólica escondida no telhado… uma coisa que descesse
automaticamente, cortasse a garganta do velho e fosse recolhida de novo?
– Algo como uma escada de corda? Hastings, sei que sua imaginação é das
mais férteis… mas imploro que a mantenha dentro dos limites do razoável.
Calei-me, acabrunhado. Poirot continuou a perambular, bisbilhotando
aposentos e armários, no rosto uma expressão de profundo dissabor. De súbito,
deixou escapar um guincho de excitação que me lembrou um lulu da Pomerânia.
Corri até perto dele. Estava na despensa numa atitude teatral. Brandia na mão o
pernil de um cordeiro!
– Meu querido Poirot! – gritei. – O que houve? Enlouqueceu de repente?
– Pelo amor de Deus, examine este cordeiro. Mas examine com atenção!
Examinei tão atentamente como pude, mas não percebi nada de diferente
nele. Pareceu-me um pernil de cordeiro bem comum até. Expus o que eu
pensava. Poirot lançou-me um olhar devastador.
– Mas você não percebeu isto… e isto… e mais isto…
Ilustrou cada “isto” com uma pancada no inofensivo pernil, e cada golpe
soltava pequenas lascas de gelo.
Poirot há pouco me acusara de ser imaginativo, mas naquele momento senti
que a fertilidade da minha imaginação não chegava nem aos pés da dele. Será
que ele pensava mesmo que as lascas de gelo eram cristais de um veneno fatal?
Essa era a minha única interpretação para seu extraordinário alvoroço.
– Carne congelada, sabe – expliquei, com suavidade. – Importada da Nova
Zelândia.
Encarou-me um instante e então irrompeu numa estranha risada.
– Que maravilha esse meu amigo Hastings! Sabe tudo… mas tudo mesmo!
Uma verdadeira enciclopédia ambulante. Esse é o meu amigo Hastings.
Largou o pernil de cordeiro na travessa e saiu da despensa. Então olhou
pela janela.
– Aí vem o nosso amigo inspetor. Muito bem. Já vi tudo que queria ver por
aqui.
Distraído, Poirot tamborilou os dedos na mesa, como se absorto em
cálculos. Então perguntou de repente:
– Que dia da semana é hoje, mon ami?
– Segunda – disse eu, bastante surpreso. – O quê…?
– Ah, segunda, não é mesmo? Péssimo dia da semana. É um erro cometer
crimes na segunda-feira.
Voltando à sala de estar, deu uma pancadinha no vidro do termômetro da
parede e mirou a escala.
– Bom e estável, 21° C. Típico dia de verão britânico.
Ingles continuava perscrutando várias peças de cerâmica chinesa.
– O senhor não tem muito interesse nesse inquérito, não é, monsieur? – quis
saber Poirot.
O outro sorriu devagar.
– Sabe, não é o meu serviço. Sou conhecedor de certas coisas, mas não
disso. Então apenas recuo e fico fora do caminho. O Oriente ensinou-me a arte
da paciência.
O inspetor entrou agitado, desculpando-se pela demora. Insistiu em nos
mostrar o terreno de novo, mas enfim nos retiramos.
– Tenho que agradecer suas inúmeras gentilezas, inspetor – disse Poirot,
enquanto descíamos pela rua do vilarejo outra vez. – Só tenho mais um pedido a
fazer.
– Deseja ver o corpo, talvez, sir?
– Ah, não, Deus me livre! Não tenho o mínimo interesse no corpo. Quero
falar com Robert Grant.
– Vai ter que voltar de carro comigo até Moreton, sir.
– Muito bem, façamos isso. Mas eu preciso vê-lo e falar com ele a sós.
O inspetor acariciou o lábio superior.
– Bem, não posso lhe garantir isso, sir.
– Eu lhe garanto que, se o senhor entrar em contato com a Scotland Yard,
vai receber autoridade plena.
– Já ouvi falar do senhor, é lógico, sir. Sei que nos ajudou algumas vezes.
Mas isso é muito irregular.
– No entanto, é necessário – disse Poirot calmamente. – É necessário por
uma simples razão… Grant não é o assassino.
– O quê? Então, quem é?
– O assassino, presumo, é um homem jovem. Veio até Granite Bungalow
numa charrete e estacionou na rua. Entrou, cometeu o crime, saiu e foi embora
rodando. Estava com a cabeça descoberta e a roupa um pouco ensanguentada.
– Mas… mas a vila toda teria visto ele!
– Não sob certas circunstâncias.
– Se estivesse escuro, talvez não; mas o crime foi cometido em plena luz do
dia.
Poirot apenas sorriu.
– E o cavalo e a charrete, sir… como pode ter certeza? Há muitas marcas de
veículos na rua. Não há como descobrir a marca de um veículo específico.
– Talvez não com os olhos do corpo; mas com os olhos da mente.
O inspetor tocou a fronte de modo significativo e lançou-me um sorriso
irônico. Eu estava completamente desnorteado, mas confiava em Poirot. A
discussão terminou com nós todos acompanhando o inspetor em seu carro de
volta a Moreton. Poirot e eu fomos levados a Grant, mas um guarda esteve
presente durante a conversa. Poirot foi direto ao ponto.
– Grant, sei que você não cometeu esse crime. Conte-me com suas palavras
exatamente o que aconteceu.
O prisioneiro era um homem de estatura mediana, com um arranjo de
feições um tanto desagradável. Se alguém parecia um presidiário, era ele.
– Para ser honesto, não fui eu – lamuriou-se. – Alguém colocou aqueles
bonecos de vidro no meio de minhas coisas. Foi uma armação, sim senhor.
Como eu disse, quando entrei fui direto ao meu quarto. Não escutei nada até que
Betsy gritou. Por Deus, Nosso Senhor, eu que não fui.
Poirot levantou-se.
– Se não é capaz de me dizer a verdade, não posso fazer nada.
– Mas chefia…
– Você realmente entrou na sala… e realmente sabia que o seu patrão estava
morto. E estava se preparando para dar no pé quando a boa Betsy fez a terrível
descoberta.
O homem encarou Poirot de queixo caído.
– Vamos lá, não foi isso o que aconteceu? Eu lhe garanto (dou minha
palavra de honra) que a sua única chance é abrir o jogo agora.
– Não tenho nada a perder – disse o homem de repente. – Foi bem assim
como o senhor disse. Entrei e fui direto falar com o patrão… e lá estava ele,
estirado no chão, com sangue por todo lado. Então fiquei com medo. Vão
descobrir minha ficha de antecedentes. E, pode apostar, vão colocar a culpa em
mim. Só conseguia pensar em fugir… na mesma hora… antes que ele fosse
encontrado.
– E as estatuetas de jade?
O homem titubeou.
– Sabe…
– Vamos dizer, pegou-as por uma espécie de impulso natural? Ouviu o
patrão falando que eram valiosas e… a ocasião faz o ladrão. Até aí eu entendo.
Mas agora me responda. Você pegou as estatuetas na segunda vez que entrou na
sala?
– Não entrei duas vezes. Uma foi suficiente.
– Tem certeza disso?
– Certeza absoluta.
– Bom. Agora me diga: quando saiu da prisão?
– Dois meses atrás.
– Como conseguiu esse emprego?
– Foi uma dessas sociedades de ajuda aos prisioneiros. Um cara me
esperava no dia em que eu saí.
– Como ele era?
– Não exatamente um vigário, mas parecia um. Chapéu preto macio, fala
mansa. Dente da frente quebrado. Óculos. O nome dele era Saunders. Disse que
esperava que eu estivesse arrependido, que ia achar uma boa posição pra mim.
Procurei o velho Whalley por recomendação dele.
Poirot ergueu-se outra vez.
– Obrigado. Agora sei de tudo. Seja paciente.
Parou no vão da porta e acrescentou:
– Saunders lhe deu um par de botas, não deu?
Grant pareceu muito espantado.
– Sim, ele me deu. Mas como o senhor sabe?
– Saber das coisas é minha profissão – disse Poirot com seriedade.
Após uma palavrinha com o inspetor, nós três fomos ao White Hart debater
ovos com bacon regados a cidra de Devonshire.
– Algum esclarecimento por enquanto? – indagou Ingles com um sorriso.
– Sim, o caso está claro o suficiente agora. Mas, veja bem, vou ter bastante
dificuldade em prová-lo. Whalley foi assassinado por ordem dos Quatro
Grandes… mas o assassino não foi Grant. Um homem muito esperto conseguiu o
cargo para Grant e planejou de modo deliberado torná-lo o bode expiatório… fato
pacífico, levando em conta a ficha corrida de Grant. Deu um par de botas a
Grant, um de dois pares duplicados. O outro guardou para si. Foi tudo tão
simples. Com Grant fora de casa e Betsy tagarelando na vila (o que
provavelmente ela faz todos os dias de sua vida), ele sobe a rua rodando. Com o
par de botas duplicado nos pés, entra pela cozinha, ganha a sala de estar,
nocauteia o velho com uma pancada na cabeça e então o degola. Em seguida,
volta à cozinha, tira as botas, coloca outro par e, carregando o primeiro par, sai,
sobe na charrete e vai embora.
Ingles mira Poirot com o olhar fixo.
– Mas ainda existe um empecilho. Como ninguém o viu?
– Ah! Aí que, estou convencido, entra a esperteza do Número Quatro.
Todos o viram… no entanto, ninguém o viu. Ele veio numa charrete de
açougueiro!
Soltei uma exclamação.
– O pernil de cordeiro?
– Exato, Hastings, o pernil de cordeiro. Todos juravam que ninguém
estivera em Granite Bungalow hoje de manhã. Entretanto, encontrei na despensa
um pernil de cordeiro ainda congelado. Hoje é segunda-feira, então a carne deve
ter sido entregue essa manhã. Pois, se fosse no sábado, nesse tempo quente, teria
descongelado durante o domingo. Então alguém havia estado em Bungalow, um
homem em que um respingo de sangue aqui e outro ali não despertaria atenção.
– Incrivelmente engenhoso! – exclamou Ingles em tom de aprovação.
– Sim, é esperto esse Número Quatro.
– Tão esperto quanto Hercule Poirot? – murmurei.
Meu amigo lançou-me um olhar de censura dignificante.
– Há certas brincadeiras que você não deveria se permitir, Hastings –
sentenciou, lacônico. – Não salvei um homem inocente da forca? Por hoje é
proeza suficiente.

Ficamos sabendo mais sobre Li Chang Yen

Agatha Christie

Por um ou dois dias depois da visita do falso atendente do hospício, cultivei
esperanças de que ele pudesse retornar… e não tirei o pé do apartamento nem por
um segundo. Até onde ia minha percepção, ele não tinha razão para suspeitar de
que descobríramos seu disfarce. Ele poderia, pensava eu, retornar e tentar
remover o corpo, mas Poirot ridicularizava meu raciocínio:
– Mon ami – disse ele –, se faz questão, pode esperar aqui, mas eu é que
não vou perder meu tempo com isso.
– Mas, então, Poirot – argumentei –, por que ele correu o risco de aparecer?
Se tencionasse voltar mais tarde para levar o corpo, sua visita teria algum
sentido. Pelo menos estaria eliminando as provas contra si. Caso contrário, não
me parece que ele tenha obtido alguma coisa.
Poirot deu a sua encolhida de ombros mais francesa.
– Mas você não enxerga com os olhos do Número Quatro, Hastings – disse
ele. – Fala de provas, mas dispomos de que provas contra ele? É verdade, temos
um corpo, mas nem ao menos podemos provar que ele foi assassinado… ácido
prússico, quando inalado, não deixa vestígios. Além disso, não podemos
encontrar ninguém que tenha visto alguém entrando no apartamento em nossa
ausência e não descobrimos nada sobre as ações de nosso amigo Mayerling…
“– Não, Hastings, o Número Quatro não deixou pistas e sabe disso.
Podemos classificar sua visita como de reconhecimento. Talvez ele quisesse
certificar-se de que Mayerling estava morto, mas é mais provável, a meu ver, que
tenha vindo para conhecer Hercule Poirot e conversar com o único adversário
que considera temível.”
O raciocínio de Poirot parecia tipicamente egocêntrico, mas evitei discutir.
– E quanto ao inquérito? – indaguei. – Imagino que você vá explicar as
coisas bem claramente e dar à polícia uma descrição completa do Número
Quatro.
– Com que objetivo? Podemos apresentar algo capaz de impressionar o juiz
investigador e seu júri de britânicos criteriosos? Não. Vamos permitir apenas que
o caso seja rotulado de “morte acidental”. E, quem sabe, embora eu não tenha
tanta esperança, nosso esperto assassino dê tapinhas nas próprias costas
congratulando-se por ter enganado Hercule Poirot no primeiro round.
Como de costume, Poirot estava certo. Não vimos mais a cara do homem
do hospício, e o inquérito (ao qual eu dei importância, mas ao qual Poirot não se
deu ao trabalho de comparecer) não despertou o interesse público.
Tendo em vista a viagem planejada à América do Sul, Poirot desvencilharase dos compromissos antes de minha chegada e não dispunha de nenhuma
investigação no momento. Por isso, ele passava a maior parte do tempo no
apartamento. Entretanto, eu não desfrutava muito de sua companhia. Ele ficava
afundado na poltrona e desencorajava minhas tentativas de conversar.
Então, certa manhã, uma semana depois do assassinato, ele me perguntou se
eu me importaria de acompanhá-lo numa visita que ele gostaria de fazer. Fiquei
contente, pois achava que ele estava cometendo um engano ao tentar resolver as
coisas sem pedir a ajuda de ninguém. Eu desejava discutir o caso com ele. Mas
descobri que ele não estava a fim de conversa. Até mesmo quando perguntei
aonde íamos, ele não me respondeu.
Poirot adora ser misterioso. Nunca compartilha informações até o último
momento possível. Nesta ocasião, após pegarmos sucessivamente um ônibus e
dois trens e chegarmos à vizinhança de um dos subúrbios mais lúgubres do Sul
de Londres, enfim consentiu em explicar as coisas.
– Hastings, vamos falar com o único homem na Inglaterra que conhece a
maior parte da vida subterrânea da China.
– É mesmo? E quem ele é?
– Você nunca ouviu falar dele… um tal de sr. John Ingles. Para todos os
efeitos, é um funcionário público de intelecto mediano, com a casa repleta de
raridades chinesas com as quais entedia amigos e conhecidos. No entanto, quem
sabe do assunto garantiu-me que o único homem capaz de me fornecer as
informações que procuro é esse mesmo John Ingles.
Instantes depois, subíamos as escadas do solar dos Loureiros, como a
residência do sr. Ingles era conhecida. Pessoalmente, não percebi nenhum pé de
louro por perto, então deduzi que o nome provinha da usual nomenclatura
obscura dos subúrbios.
Fomos recebidos por um criado chinês de rosto impassível e encaminhados
sem delongas à presença do seu mestre. O sr. Ingles era um homem de ombros
largos, de tez amarelada, com olhos encovados, de um caráter estranhamente
reflexivo. Levantou-se para nos cumprimentar, pondo de lado a carta aberta que
segurava. Referiu-se a ela após as boas-vindas.
– Sentem-se, por favor. Hasley me conta que os senhores desejam algumas
informações e que eu posso ser útil no assunto.
– É verdade, monsieur. Gostaria de saber, por acaso já ouviu falar num
homem chamado Li Chang Yen?
– Singular… singularíssimo. Onde os senhores ouviram falar nesse homem?
– Então o senhor o conhece?
– Uma vez nos encontramos. Sei alguma coisa sobre ele… não tanto quanto
eu gostaria. Mas causa-me espécie que alguém mais na Inglaterra tenha ouvido
falar nele. À sua maneira, é um grande homem (da classe dos mandarins e tudo o
mais); mas o ponto crucial não é esse. Há boas razões para se supor que ele seja
o homem por trás de tudo.
– Por trás de tudo o quê?
– De tudo. O desassossego global, os problemas trabalhistas que acossam
todas as nações e as revoluções que irrompem em algumas delas. Existem
pessoas, não alarmistas, que sabem do que estão falando. Elas afirmam que há
uma força nos bastidores cujo objetivo é nada mais nada menos do que a
desintegração da civilização. Sabe, na Rússia havia muitos sinais de que Lênin e
Trótski eram meros fantoches com ações comandadas por outro cérebro. Não
disponho de prova definitiva, mas estou bem convencido de que esse cérebro era
o de Li Chang Yen.
– Ah, pode parar – protestei. – Não acha isso um pouco forçado? Desde
quando um chinês iria apitar alguma coisa na Rússia?
Poirot olhou-me com desagrado.
– Para você, Hastings – comentou ele –, tudo que não venha da sua própria
imaginação é forçado. De minha parte, concordo com este cavalheiro. Por favor,
continue, monsieur.
– O que ele ambiciona alcançar exatamente admito que não sei ao certo –
prosseguiu o sr. Ingles –, mas calculo que sua doença seja a mesma que
acometeu os grandes cérebros desde Akbar, Alexandre até Napoleão: sede de
poder e de supremacia pessoal. Até os tempos modernos, as conquistas
dependiam da força armada. Porém, neste século de inquietude, um homem
como Li Chang Yen pode lançar mão de outros meios. Pelas evidências que
tenho, ele dispõe de verbas ilimitadas para suborno e propaganda ideológica. Há
indícios de que ele controla alguma força científica com cujo poder o mundo
jamais sonhou.
Poirot prestava muita atenção nas palavras do sr. Ingles.
– E na China? – perguntou ele. – Ele atua por lá também?
O outro assentiu com ênfase e afirmou:
– Embora eu não tenha prova para apresentar perante os tribunais, afirmo
isso por conhecimento próprio. Conheço pessoalmente cada homem importante
da China de hoje e posso garantir aos senhores: os homens que mais aparecem
na mídia têm pouca ou nenhuma personalidade. São marionetes manipuladas
pelos fios puxados por mãos de mestre, e essas mãos pertencem a Li Chang Yen.
É dele o cérebro controlador do Oriente nos dias de hoje. Não entendemos o
Oriente… e nunca vamos entender. Mas Li Chang Yen é a sua força motriz. Não
que ele procure a luz dos holofotes… não, isso nem pensar. Ele nunca sai de seu
palácio em Pequim. Mas ele mexe os pauzinhos (isso mesmo, mexe os
pauzinhos) e coisas acontecem longe dali.
– E ele não tem nenhum oponente? – indagou Poirot.
O sr. Ingles inclinou o corpo à frente na poltrona.
– Nos últimos quatro anos, quatro homens tentaram enfrentar Li Chang Yen
– disse ele, devagar. – Homens de caráter, honestidade e capacidade cerebral.
Todos poderiam ter interferido nos planos dele.
Fez uma pausa.
– E então? – perguntei.
– Então, todos estão mortos. Um deles escreveu um artigo conectando o
nome de Li Chang Yen às revoltas em Pequim. Dois dias depois, foi esfaqueado
na rua. O assassino nunca foi capturado. As ofensas dos outros três foram
semelhantes. Numa conferência, num artigo ou numa conversa, todos ligaram o
nome de Li Chang Yen a levantes e rebeliões. Em menos de uma semana depois
da indiscrição, estavam mortos. Um foi envenenado; outro morreu de cólera, um
caso isolado, pois não havia epidemia; e o último foi encontrado morto na cama.
A causa dessa última morte nunca foi determinada, mas o legista que examinou o
corpo me contou que ele foi queimado e paralisado ao receber uma carga elétrica
de incrível potência.
– E Li Chang Yen? – indagou Poirot. – Como seria de se esperar, nenhum
vestígio conduz a ele, mas existem indícios, não?
O sr. Ingles deu de ombros.
– Indícios… ah sim, com certeza. Uma vez encontrei um homem prestes a
falar, um jovem e promissor químico chinês, apadrinhado por Li Chang Yen. Um
dia, esse químico me procurou. Percebi que ele estava à beira de um ataque de
nervos. Aludiu aos experimentos em que andava envolvido no palácio de Li
Chang Yen, sob as ordens do mandarim… Os experimentos tinham como cobaias
trabalhadores chineses e revelavam o mais revoltante desdém à vida e ao
sofrimento humanos. Ele se encontrava com os nervos em frangalhos, num
estado de terror dos mais deploráveis. Deixei-o descansando em minha casa,
num quarto do segundo piso, planejando interrogá-lo no dia seguinte… Mas, é
claro, isso foi estupidez minha.
– Como eles o pegaram? – quis saber Poirot.
– Nunca vou saber. Acordei aquela noite com minha casa em chamas e tive
sorte de escapar com vida. De acordo com a investigação, um incêndio de
incrível intensidade começou no segundo andar. Os restos mortais de meu amigo
químico foram carbonizados.
Pude notar, pelo ardor com que o sr. Ingles estivera falando, que aquele era
um de seus assuntos preferidos. Ao que parece, ele também se deu conta de sua
empolgação, pois riu como quem se desculpa.
– Mas, é claro – disse ele –, não tenho provas. E os senhores, assim como
os outros, vão dizer que é só uma ideia fixa.
– Ao contrário – falou Poirot, calmamente. – Temos todas as razões para
acreditar em seu relato. Estamos bem interessados em Li Chang Yen.
– Muito estranho os senhores saberem da sua existência. Não imaginava
que uma vivalma em Londres tivesse ouvido falar nele. Seria bom saber onde foi
que os senhores ouviram falar nele… sem querer ser indiscreto.
– Não está sendo nem um pouco indiscreto, monsieur. Um homem
refugiou-se em meus aposentos. Estava sob um transe intenso, mas conseguiu
nos contar o suficiente para despertar nosso interesse em Li Chang Yen.
Descreveu quatro pessoas, os Quatro Grandes, uma organização até então nunca
sonhada. Número Um, Li Chang Yen, Número Dois, um americano
desconhecido, Número Três, uma mulher francesa igualmente desconhecida.
Quanto ao Número Quatro, pode ser chamado de executivo da organização: o
Destruidor. Meu informante morreu. Me diga, monsieur, já ouviu falar na
expressão os Quatro Grandes?
– Não em conexão com Li Chang Yen. Não, não posso afirmar isso. Mas
ouvi ou li algo, não faz muito tempo… e também numa conexão esquisita. Ah, já
sei.
Ergueu-se, cruzou a sala e parou em frente a um armário embutido
marchetado em ouro – um móvel extravagante, até onde consegui ver. Retornou
com uma carta na mão.
– Aqui está. Enviada por um velho marinheiro que conheci certa vez em
Shangai. Velho beberrão inveterado, eu diria. Creditei o conteúdo da carta aos
delírios do alcoolismo.
Leu em voz alta:
– “Prezado Senhor: talvez não se lembre de mim, mas o senhor me ajudou
uma vez em Shangai. Ajude-me outra vez agora. Preciso de dinheiro para sair do
país. Estou bem escondido aqui, espero, mas a qualquer hora eles podem me
achar. Os Quatro Grandes, quero dizer. É uma questão de vida ou morte. Tenho
bastante dinheiro guardado, mas não me atrevo a movimentá-lo nem a chegar até
ele, com medo de chamar a atenção deles. Por favor, me envie duzentas libras
em espécie. Juro que vou reembolsar cada centavo. Seu criado, sir Jonathan
Whalley.”
– Postada em Granite Bungalow, Hoppaton, Dartmoor – explicou o sr.
Ingles. – Receio ter considerado essa mensagem um método rudimentar de me
aliviar de duzentas libras das quais eu nunca mais veria a cor. Se for de alguma
utilidade para os senhores…
Esticou o braço oferecendo-nos a carta.
– Je vous remercie, monsieur. Vou partir a Hoppaton à l’heure même.
– Puxa vida, isso está ficando interessante. Posso ir com os senhores?
Alguma objeção?
– Ficarei encantado com sua companhia, mas devemos partir logo. Se tudo
correr bem, chegaremos em Dartmoor ao anoitecer.
John Ingles não retardou nossa partida por mais que dois minutos, e em
breve nós três estávamos no trem afastando-nos de Paddington rumo a West
Country. Hoppaton era uma pequena aldeia apinhada numa ravina bem nos
limites do terreno pantanoso. Ficava a quinze quilômetros de carro a partir de
Moretonhampstead. Chegamos perto das oito horas da noite; mas, como era mês
de julho, ainda era dia claro.
Percorremos a estreita rua do vilarejo e então paramos para pedir
orientações a um velho camponês.
– Granite Bungalow – disse o velho, refletindo. – Tão procurando Granite
Bungalow, é isso?
Garantimos a ele que era isso que queríamos.
O velho apontou um chalezinho cinza no fim da rua.
– O bangalô fica em frente, ali adiante. Querem falar co’ inspetor, querem?
– Que inspetor? – indagou Poirot bruscamente. – O que o senhor quer
dizer?
– Não tão sabendo do crime, então? Negócio chocante, tá parecendo.
Sangue pra tudo que é lado, tão dizendo.
– Mon Dieu! – murmurou Poirot. – Esse inspetor local, preciso falar com
ele imediatamente.
Cinco minutos depois, estávamos em um gabinete com o inspetor
Meadows. No começo, o inspetor não se mostrou muito colaborativo, mas, ao
mencionarmos o nome mágico do inspetor Japp da Scotland Yard, ele mudou de
atitude.
– Sim, sir. Assassinado esta manhã. Um negócio chocante. Ligaram para
Moreton e eu vim na mesma hora. No começo, parecia um caso misterioso. O
velho (tinha uns setenta anos, sabe, e era chegado numa bebida, pelo que me
disseram) jazia no piso da sala de estar. Tinha um ferimento na cabeça e a
garganta cortada de orelha a orelha. Sangue por tudo, os senhores podem
imaginar. A mulher que cozinhava para ele, Betsy Andrews, nos contou que
várias estatuetas chinesas feitas de jade, que o patrão lhe dissera que eram muito
valiosas, tinham desaparecido. Isso, é claro, levava a crer num latrocínio, mas
havia todo o tipo de dificuldade no caminho dessa solução. O ancião tinha dois
empregados em casa: Betsy Andrews, uma senhora aqui mesmo de Hoppaton, e
Robert Grant, uma espécie tosca de criado. Grant havia saído para buscar o leite
na fazenda, coisa que faz todos os dias, e Betsy estava conversando na casa da
vizinha. Ao que consta, ela ficou fora só uns vinte minutos (entre dez e dez e
meia), e o crime deve ter acontecido nesse período. Grant voltou antes para casa.
Entrou pela porta de trás, que estava aberta (ninguém tranca as portas por aqui,
pelo menos não em plena luz do dia), colocou o leite na despensa e foi até o
quarto dele ler jornal e fumar um cigarro. Ele não tinha ideia de que algo
incomum tivesse acontecido… pelo menos é o que ele diz. Então Betsy entra, vai
até a sala de estar, vê o que aconteceu e solta um berro de acordar os mortos. Até
aí, tudo bem. Alguém entrou enquanto os dois estavam fora e fez o serviço no
coitado do velho. Mas logo me chamou a atenção que esse criminoso deve ser
um indivíduo bem sangue frio. Ele teria que ter vindo direto pela rua da vila ou
se esgueirando pelo quintal de alguém. Granite Bungalow tem casas por toda a
volta, como vocês podem notar. Como, então, ninguém viu nada?
O inspetor parou com um gesto peculiar.
– Entendo aonde o senhor quer chegar – disse Poirot. – Quer continuar?
– Bem, sir, negócio suspeito, falei para mim… muito suspeito. E comecei a
olhar a meu redor. Ora, aquelas estatuetas chinesas, por exemplo. Por acaso um
ladrão comum suspeitaria do valor delas? De qualquer forma, foi loucura tentar
uma coisa dessas em plena luz do dia. E se o velho tivesse gritado por socorro?
– Imagino, inspetor – disse o sr. Ingles –, que o ferimento na cabeça tenha
sido infligido antes da morte?
– Exato, sir. Primeiro o tontearam e depois o degolaram. Isso está claro.
Mas como diabo ele veio e foi embora? Num lugarzinho como este, as pessoas
notam estranhos na mesma hora. Então, me ocorreu de repente: ninguém veio.
Dei uma boa olhada nas redondezas. Choveu ontem à noite, e pegadas nítidas
entravam e saíam da cozinha. Na sala de estar, só dois conjuntos de pegadas (as
pegadas de Betsy interrompiam-se na porta): as do sr. Whalley (ele calçava
pantufas) e as de outro homem. O outro homem pisara nas manchas de sangue, e
eu segui o rastro sanguinolento… com sua desculpa, sir.
– Não se incomode – disse o sr. Ingles com um sorriso amarelo. – O
adjetivo é perfeitamente adequado.
– Primeira evidência: rastreei-o até a cozinha, mas não além dela. Segunda
evidência: na moldura da porta de Robert Grant havia uma tênue mancha… uma
tênue mancha de sangue. E a terceira evidência surgiu quando examinei as botas
de Grant (que ele havia tirado) e comparei-as com as marcas. Elas se
encaixavam. Foi um serviço doméstico. Adverti Grant e o coloquei em prisão
preventiva. E o que os senhores acham que encontrei embrulhado na maleta
dele? As pequenas estatuetas de jade e um certificado de soltura. Robert Grant
era também Abraham Biggs, condenado por arrombamento e homicídio há cinco
anos.
O inspetor silenciou, triunfante.
– O que acham disso, cavalheiros?
– Acho – disse Poirot – que aparenta ser um caso bastante óbvio… de uma
obviedade surpreendente, aliás. Esse Biggs, ou Grant, deve ser um homem bem
estúpido e inculto, não?
– Ah, ele é bem isso: um camarada rústico e simples. Sem ideia do que uma
pegada pode significar.
– É evidente que ele não conhece literatura policial! Bem, inspetor, eu lhe
dou meus parabéns. Podemos olhar a cena do crime?
– Eu mesmo vou acompanhá-los até lá agora. Quero que os senhores vejam
aquelas pegadas.
– Eu também gostaria de vê-las. Sim, sim, muito interessante e engenhoso.
Saímos sem demora. O sr. Ingles e o inspetor tomaram a dianteira. Retive
Poirot um pouco para trás, de modo a conseguir conversar com ele sem o
inspetor ouvir.
– O que pensa realmente, Poirot? Há algo mais nisso além do que podemos
ver?
– Esse é o problema, mon ami. Whalley diz claramente na carta dele que os
Quatro Grandes estavam em seu encalço. E você e eu sabemos que os Quatro
Grandes não brincam em serviço. No entanto, tudo indica que esse tal de Grant
cometeu o crime. Por que ele fez isso? Por causa das estatuetas de jade? Ou será
que é um agente dos Quatro Grandes? Confesso que essa última alternativa é a
mais provável. Por mais valioso que fosse o jade, não era provável que um
homem dessa categoria se apercebesse disso… ao menos a ponto de cometer
assassinato. (E essa ideia, par example, não ocorreu ao inspetor.) Ele poderia ter
roubado o jade e fugido em vez de cometer um assassinato brutal. Ah, sim:
receio que nosso amigo de Devonshire não tenha utilizado as pequenas células
cinzentas. Mediu pegadas, mas deixou de pensar e coordenar as ideias com o
método necessário.

O homem do hospício

Agatha Christie
Felizmente o trem parara perto da estação. Uma caminhada curta levou-nos
a uma oficina, onde conseguimos um carro. Meia hora depois, rodávamos
velozes rumo a Londres. Só então, e nem um minuto antes, Poirot dignou-se a
satisfazer minha curiosidade.
– Não percebeu? Eu também não. Mas agora percebo. Hastings, eu estava
sendo tirado do caminho.
– O quê?!
– Sim. Com muita sagacidade. Tanto o local quanto o método foram
escolhidos com grande conhecimento e perspicácia. Estavam com medo de mim.
– Quem?
– Esses quatro gênios que se coligaram para maquinar fora da lei. Um
chinês, um americano, uma francesa e um… incógnito. Deus queira que a gente
chegue a tempo, Hastings.
– Acha que nosso visitante corre perigo?
– Acho não, tenho certeza.
A sra. Pearson saudou-nos ao chegarmos. Enquanto ela demonstrava
enlevos de assombro ao ver Poirot, pedimos informações. Foram reconfortantes.
Ninguém havia ligado, e nosso visitante não se manifestara.
Com um suspiro de alívio, subimos ao apartamento. Poirot cruzou a sala de
estar e entrou no aposento interno. Então me chamou com uma estranha agitação
na voz.
– Hastings, ele está morto.
Atendi correndo ao chamado de Poirot. O homem estava deitado na mesma
posição, mas sem vida. Morrera há um certo tempo. Corri para chamar um
médico. Ridgeway, eu sabia, não teria retornado ainda. Sem demora, localizei
outro e trouxe-o comigo.
– Mortinho, o pobre sujeito. Um vagabundo que vocês estavam ajudando,
não é?
– Coisa parecida – disse Poirot, evasivo. – Qual a causa da morte, doutor?
– Difícil afirmar. Pode ter sido uma espécie de ataque. Há sinais de asfixia.
Por acaso tem gás no apartamento?
– Não, só luz elétrica.
– E as duas janelas escancaradas. Morto há umas duas horas, eu diria. Os
senhores vão avisar a quem de direito, não vão?
O médico se retirou. Poirot fez alguns telefonemas necessários. Por fim,
para meu espanto, ligou para nosso velho amigo, o inspetor Japp, da Scotland
Yard, e perguntou se ele não poderia dar uma passada por ali.
Tão logo essas medidas foram tomadas, a sra. Pearson apareceu com os
olhos arregalados.
– Tem um homem lá embaixo. Disse que é do’spício Anwell. Já pensou?
Faço ele subir?
Assentimos, e um homenzarrão com uniforme foi introduzido no recinto.
– Dia, cavalheiros – disse ele, efusivo. – Há indícios de que os senhores
estejam com um dos meus passarinhos aqui. Fugiu ontem à noite, o maroto.
– Estava aqui – disse Poirot com voz calma.
– Não vai me dizer que ele fugiu de novo? – indagou o atendente, com certa
apreensão.
– Está morto.
O homem pareceu mais aliviado do que qualquer outra coisa.
– Não me diga. Bem, é melhor assim. Arrisco dizer que assim foi melhor
pra todo mundo.
– Ele era… perigoso?
– Tendência ’ssassina, quer dizer? Ah, que nada. Bem inofensivo até. Mania
de perseguição aguda. Cheio de sociedades secretas da China que o
trancafiaram. São todos iguais.
Estremeci.
– Há quanto tempo ele estava trancafiado? – perguntou Poirot.
– Vai fazer dois anos agora.
– Entendo – disse Poirot com a voz baixa. – Nunca ocorreu a ninguém que
ele estivesse… bem da cabeça?
O atendente permitiu-se cair na risada.
– Se ele estivesse bem da cabeça, o que estaria fazendo num hospício?
Sabe, todos dizem estar bem da cabeça.
Poirot não falou mais nada. Conduziu o homem ao quarto interno para ver o
corpo. A identificação veio de imediato.
– É ele… com certeza – disse o funcionário do hospício de modo insensível.
– Tipo meio engraçado, né? Bem, senhores, dadas as circunstâncias, é melhor eu
ir andando e tratar de tomar as providências. Não queremos que esse cadáver os
incomode por muito mais tempo. Em caso de inquérito, os senhores vão ser
chamados, arrisco dizer. Bom dia, sir.
Com uma reverência desajeitada, retirou-se do quarto arrastando os pés.
Poucos minutos depois, o inspetor Japp chegou, airoso e garboso como
sempre.
– Eis-me aqui, moosior Poirot. O que posso fazer para lhe ajudar? Não era
hoje que o senhor ia viajar para uma dessas praias tropicais?
– Meu bom Japp, quero saber se você já viu este homem antes.
Levou Japp ao quarto interno. Com o rosto perplexo, o inspetor encarou o
indivíduo na cama.
– Deixe-me ver… não me é estranho… e olha que eu me orgulho de ter boa
memória para fisionomias. Minha nossa! É Mayerling!
– E quem é Mayerling?
– Um camarada do serviço secreto… não é do nosso pessoal. Foi para a
Rússia cinco anos atrás. Depois disso nunca mais ouvi falar dele. Sempre pensei
que havia sido morto pelos comunistas.
– Tudo se encaixa – disse Poirot após Japp sair –, com exceção de que a
morte dele parece ter sido natural.
Permaneceu de cenho franzido, com o olhar baixo e fixo no vulto imóvel.
Uma lufada de vento fez as cortinas esvoaçarem. Poirot levantou os olhos
bruscamente.
– Imagino que você tenha aberto as janelas quando o trouxe até a cama,
Hastings?
– Não – respondi. – Até onde me lembro, estavam fechadas.
Poirot ergueu a cabeça de repente.
– Fechadas… mas agora estão abertas. O que isso significa?
– Alguém entrou por ali – sugeri.
– É possível – concordou Poirot, absorto e sem convicção. Pouco depois,
disse:
– Não é bem isso que eu quis dizer, Hastings. Se só uma janela estivesse
aberta, não seria de se estranhar. O que me deixa intrigado é o fato de as duas
janelas estarem abertas.
Correu ao outro quarto.
– A janela da sala de estar, aberta também. E estava fechada. Ah!
Inclinou-se sobre o homem morto, examinando os cantos da boca com
minúcia. Então levantou o olhar de súbito.
– Ele foi amordaçado, Hastings. Amordaçado e depois envenenado.
– Céus! – exclamei, chocado. – Suponho que tudo isso seja descoberto na
autópsia.
– Nada será descoberto. Ele morreu inalando ácido prússico concentrado.
Foi pressionado contra o nariz dele. Então o assassino foi embora, não sem antes
abrir todas as janelas. O ácido cianídrico é extremamente volátil, mas tem um
cheiro forte de amêndoas amargas. Sem vestígio de odor para guiá-los e sem
suspeita de crime, os médicos creditam a morte a causas naturais. Hastings,
então este homem era do serviço secreto. E desapareceu há cinco anos na Rússia.
– Esteve no hospício nos últimos dois anos – falei. – Mas e os três anos
anteriores?
Poirot balançou a cabeça e então me agarrou pelo braço.
– O relógio, Hastings, olhe o relógio.
Segui o olhar dele até a cornija da lareira. O relógio havia parado marcando
quatro horas.
– Mon ami, alguém forjou isso. Tinha ainda três dias para funcionar. A
corda dura oito dias, entende?
– Mas por que eles iam querer fazer uma coisa dessas? Para dar a pista falsa
de que o crime ocorreu às quatro horas?
– Não, mon ami, nada disso. Coordene as ideias. Ponha para trabalhar as
pequenas células cinzentas. Coloque-se na pele de Mayerling. Escuta um barulho
talvez… e se dá conta de que seu destino está selado. Só resta tempo para deixar
um sinal. Quatro horas, Hastings. Quatro, o destruidor. Ah! Tive uma ideia!
Com rapidez passou do quarto à sala e pegou o telefone. Pediu uma ligação
para Hanwell.
– É do hospício, não? Fiquei sabendo que hoje houve uma fuga, é verdade?
Como? Espere um pouco, por favor. Poderia repetir? Ah! Parfaitement.
Colocou o fone no gancho e virou-se para mim.
– Escutou isso, Hastings? Não houve fuga nenhuma.
– Mas e o homem que veio… o atendente? – perguntei.
– Isso me faz pensar… pensar bastante.
– Quer dizer…?
– Quatro… o destruidor.
Confuso, fitei Poirot. No instante seguinte, recuperei a voz e disse:
– Se o virmos de novo, vamos reconhecê-lo, em qualquer lugar, isso é certo.
Era um homem de personalidade muito característica.
– Será mesmo, mon ami? Acho que não. Tinha corpo troncudo, rosto
corado e postura sem cerimônias. Tinha bigode espesso e voz rouca. A esta
altura não deve ter nenhuma dessas coisas. Quanto ao resto, tem olhos
indefiníveis, orelhas indefiníveis e uma irretocável dentadura postiça.
Identificação não é um assunto fácil como você pensa. Na próxima vez…
– Será que vai ter uma próxima vez? – interrompi.
O rosto de Poirot ficou muito sério.
– É um duelo mortal, mon ami. De um lado, você e eu. Do outro, os Quatro
Grandes. Eles venceram o primeiro round; mas falharam no plano de me tirar do
caminho. Em breve vão ter que acertar as contas com Hercule Poirot!